TECNOLOGIA

 


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Trabalho: Como evitar que as IAs nos definam

Naturalizar a adoção de tecnologias e entregá-las ao mercado expõe a sociedade à sua lógica – em que “eficiência” significa reduzir trabalho humano. Mas a própria sociedade pode disputar outro futuro. Como na China, desenhar um arcabouço legal que proteja empregos

A adoção das IAs no mercado de trabalho brasileiro, vista como “ganho de eficiência”, mascara o custo do desemprego e da precarização. Naturalizar essa adoção e encarregar o mercado da solução dos problemas que as IAs ignoram os custos da violência social envolvida. Uma proposta alternativa é a construção de uma regulação capilar e evolutiva, baseada em métricas locais e na articulação de coletivos comunitários para controlar o ritmo de substituição do trabalho e evitar transições catastróficas anunciadas. O texto é um sopro para politizar a introdução das IAs questionando quem ganha e quem perde, onde e quando, defendendo que a tecnologia sirva à sociedade, não o contrário.

Recepcionando as IAs

A inauguração das IAs em larga escala é relativamente recente. Mas elas já demonstraram sua utilidade e consequente atratividade para um amplo espectro de tarefas e ocupações associadas aos padrões cotidianos da vida moderna. É fácil verificar pessoalmente a capacidade das IAs de executar, autônoma ou interativamente e de maneira surpreendentemente satisfatória, tarefas às vezes não tão simples e rotineiras sobre textos, áudios e imagens. Rejeitá-las seria comparável a imaginamos a rejeição do telefone em favor do menino de recados no começo do século XX. Reconhecer isso, no entanto, não nos impede de pensar e agir sobre como recebê-las levando em conta condições vigentes no Brasil.

O mercado de trabalho em meio à diversidade das IAs

A primeira condição para recebermos as IAs com proveito mais amplo é reconhecer que elas são diversas e devem ser tratadas situando-as caso a caso nos coletivos em que se fizerem presentes. Neste breve texto me circunscrevo ao coletivo (de pessoas e coisas) denominado “mercado de trabalho”. Mais especificamente, me circunscrevo ao mercado da oferta e da demanda por trabalho para realizar tarefas simples e quase repetitivas tais como as de atendentes em call centers. O empresariado diz que as IAs surgem aí com vantagem incontornável, uma vez que neste caso muitas vezes já existe a opção “técnica” do trabalho humano ser substituídos por IAs contabilmente mais baratas. Trazendo outro exemplo, não é um devaneio alarmista pensar que no prazo de poucos anos uma IA viabilizará que o trabalho hoje feito por dez escreventes nos tabelionatos e escritórios de advocacia possa ser feito por três deles (retreinados), desempregando sete em cada dez indivíduos nesta categoria de trabalhadores.


Discutamos o que é “eficiência”

Os números que circulam nos meios empresariais apontam o potencial altamente disruptivo das IAs. No caso do trabalho contratado por empresas, o discurso empresarial traduz essa grande “diminuição do trabalho humano” oferecida pelas IAs como um “ganho de eficiência”. Acontece que para que esse “ganho de eficiência” deixe de ser uma abstração econômica misteriosa é preciso situá-lo materialmente no escopo de uma contabilidade, de uma métrica, de uma medida da vida econômica. Mas ao se confiar na contabilidade do empresariado e na pureza de teorias econômicas dominantes como a melhor forma de se analisar o que acontece na vida econômica, não são levados em conta o sofrimento e a violência decorrentes das demissões e da falta de oportunidades de trabalho.[1] Assim, a contabilidade, a métrica e as medidas dos custos deixam de considerar fatores cruciais para que se realize a tradução da “diminuição do trabalho humano” em “ganho de eficiência”.  

Como as teorias econômicas dominantes não discutem quem ganha e quem perde, quando e onde com esse “ganho de eficiência”, a ideia de “progresso” instala com facilidade um poderoso lobby de oposição à regulamentação da utilização das IAs nas empresas, deixando para o “mercado” resolver por si só as situações decorrentes dos avanços da utilização desregulada das IAs nas empresas. A busca do “ganho de eficiência” se configura então como algo naturalmente bom e desejado por todos, sem que se atente para o que pode ser o “ganho de eficiência”.

Onde poderão estar as prometidas novas tarefas

O “mercado” dirá genericamente que pelo menos uma parte do trabalho humano que a IA torna dispensável aparecerá algures como trabalho humano necessário voltado para outras tarefas decorrentes do uso da IA. Para o “mercado” o ritmo de dispensa do trabalho humano na recepção das IAs nas empresas deve ser pautado unicamente pelo ritmo dos avanços técnicos no desenvolvimento das IAs. E toda resistência ao avanço tecnológico é rapidamente rejeitada como obscurantismo e classificada como “ludista”.[2]

Mas estamos no Brasil e cabe olhar cuidadosamente esse argumento do “mercado” que naturaliza o ritmo de introdução das IAs como algo inseparável do ritmo do desenvolvimento tecnológico das IAs. Além disso, admitamos, o ritmo do desenvolvimento tecnológico das IAs é determinado em outros países, como EUA, China e Israel. Não é difícil enxergar que o ritmo de criação de novo trabalho humano para compensar o que se tornou dispensável com as IAs possa variar conforme o país, a região, o estado ou mesmo o município.

Uma utopia chinesa

Por isso também ganha força no Brasil a “conveniência” de delegar a solução da questão do desemprego criado pelas IAs às abstrações do “mercado” ou das teorias da ciência econômica. A “conveniência” está em contornar o desafio de pôr em prática uma regulamentação que deverá ser capilar e evolutiva para minimizar sofrimento e violência conforme os locais, o que soa como uma utopia chinesa aos ouvidos dos estamentos que governam nosso país.

Muito esquematicamente, carente de incontáveis complementos e aperfeiçoamentos, essa utopia envolveria (a) a criação de dispositivos métricos detalhados e evolutivos de acompanhamento e contagem (uma estatística) de demissões e contratações ligadas às IAs no âmbito de coletivos locais, com capilaridade suficiente para detalhar a situação no mercado de trabalho indo pelo menos ao nível municipal; (b) o engajamento de coletivos comunitários, sejam sindicatos, partidos políticos, grupos profissionais, empregados de uma empresa, redes socias etc. interessadas em negociações que evolutivamente lutem por estabelecer uma regulamentação visando pôr em prática um fluxo equilibrado de demissões (trabalhos assumidos pelas IAs) e admissões (novos trabalhos para humanos) medidos por (a) em determinada região, estado ou município; (c) a criação e implantação pelo Estado de um arcabouço legal que estabeleça as condições para que estas negociações entrem em cena com a força dos dispositivos legais. A rede desses elementos entrelaçados definiria propriamente o escopo de uma contabilidade, uma métrica, uma medida para avaliar materialmente o custo e em decorrência o “ganho de eficiência” (“produção” / “custo”) trazido pelas IAs.

Para ser bem-sucedido, uma transformação do tipo sugerido acima na maneira de construir políticas públicas teria que ganhar escala numa formação “de baixo para cima”, com a participação e condução daqueles que são vítimas da violência e encarnam o sofrimento envolvido nas disrupções trazidas pelas IAs. Para quem tem seu trabalho rotineiro substituído pelas IAs, o desaparecimento do trabalho humano nos call centers e escritórios acontecer ao longo de dez, de cinco ou de um ano faz bastante diferença.


Impossível! Já ouço o descarte da proposta de recepção das IAs esboçada acima pelos estamentos que governam o Brasil, alegando desde “ingenuidade” a “radicalismo utópico”, não obstante a crescente admiração pelas realizações chinesas tão aparentes nas últimas décadas.

Da mão invisível para as mãos visíveis

Como ponto de partida sine qua non é preciso reconhecer que o grau de violência e sofrimento pode ser ao menos em parte controlado mediante regulamentação. A ignição daquele “de baixo para cima” pode contar com o engajamento de coletivos mediadores nos diversos âmbitos sociotécnicos pelos brasis afora. São muitos os exemplos de grupos mediadores do sofrimento, formados em associações formais ou informais de mulheres e homens das diversas ocupações e classes sociais. Em torno da questão de como resistir ao catastrófico lembremos que o engajamento em um coletivo mediador faz com que seus participantes se destaquem como praticantes que participam da formulação de problemas e não só como analistas ou usuários.

Em seu livro “Em meio ao catastrófico: resistindo à barbárie que se aproxima”, a filósofa belga Isabelle Stengers descreveu a capacidade de “pensar e agir em conjunto” como a possibilidade de uma “inteligência coletiva” incorporada em “grupos que reivindicam a capacidade de intervir, de complicar as coisas, de se intrometer naquilo que – tanto do ponto de vista do Estado quanto do Empresariado – não lhes diz respeito”. (STENGERS, 2015:77)[3]

Politizar as IAs

Um dos enormes desafios para o nosso país diante das IAs é se preparar a tempo criando dispositivos métricos próprios para discutir ampla e democraticamente este “ganho de eficiência” e intervir escapando da força desenfreada do mercado que, grosso modo, foi no Ocidente elevada à categoria cognitiva de força natural. Lutemos para que nossos coletivos de pensamento tenham a perspectiva de intervenção e vivam a tensão envolvida na escolha das formas de intervir. Com as IAs, caso a caso, quem ganha e quem perde, onde, quando e o quê? E com quais IAs?

Referências


DA COSTA MARQUES, I. Reserva de mercado: um mal entendido caso político-tecnológico de “sucesso” democrático e “fracasso” autoritário. Revista de Economia da Universidade Federal do Paraná, 24, n. 26, p. 91-116, 2000.

POLANYI, K. A Grande Transformação – as origens da nossa época. Tradução WROBEL, F. e ARAÚJO, R. B. d. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1944/2000. 350 p.

STENGERS, I. No tempo das catástrofes – resistir à barbárie que se aproxima. Tradução RIBEIRO, E. A. São Paulo: Cosac Naify, 2015. 160 p.

Notas


[1] Historicamente, não contabilizar violência e sofrimento é característica marcante dos avanços na obtenção de pureza científica para o tratamento da mercadoria “trabalho” desde o ato inaugural de seu mercado. O “mercado de trabalho livre” nasceu não de uma liberdade espontânea, mas de uma intervenção estatal violenta e do consequente sofrimento cruel que desenraizou as pessoas de suas comunidades, dissociando a economia da sociedade. Para que o trabalho fosse tratado como uma mercadoria foi necessário primeiro destruir o sistema tradicional de proteção social. “A abolição da ‘Lei dos Pobres’ (Poor Law Amendment Act de 1834) não foi uma transformação administrativa, mas um ato fundacional do capitalismo para criar a mercadoria fictícia ‘trabalho’”. Ver a esse respeito ver a magistral análise de Karl Polanyi que enreda elementos da certeza científica da época para conseguir as alianças políticas que foram necessárias para perpetrar este “ato de vivisseção executado no corpo da sociedade [inglesa da primeira metade do século XIX]” (POLANYI, 1944/2000:154-155)

[2] A propósito, a visão ainda dominante sobre os ludistas é contestada por eminentes historiadores desde os anos 1960. E.P. Thompson, Eric Hobsbawm e Kevin Binfield desfizeram a imagem do movimento ludista como um movimento cego contra a tecnologia. Os ludistas eram artesãos qualificados que entendiam perfeitamente as máquinas e não eram contra a tecnologia em si, mas quando seu uso substituía a mão de obra humana de forma prejudicial. Seu movimento era uma reação às desigualdades econômicas, não à inovação técnica. A crítica era ao modelo de exploração, não à máquina como objeto.

[3] Isabelle Stengers configura esses grupos que reivindicam a capacidade de intervir como construtores de pontes entre demandas locais concretas e as ações institucionais que são as suas traduções pelo Estado. No Brasil, há vários processos em que ativistas, lideranças comunitárias ou mediadores desempenharam esse papel. Nesse diapasão pode-se pensar nos Agentes Comunitários de Saúde, no modelo da Saúde da Família, assim como no reconhecimento das Reservas Extrativistas, nas políticas voltadas a povos tradicionais, na transformação de tecnologias sociais em programas de governo, como as cisternas do Semiárido. (Lei nº 11.350/2006 (Regulamentação do trabalho do ACS); Lei nº 9.985/2000 (SNUC – Criação das RESEX); Decreto nº 6.040/2007 (Política para Povos e Comunidades Tradicionais); Programa Água para Todos). Ressoa aí também a tradução da demanda por independência tecnológica feita por profissionais técnicos em informática na política industrial para fabricação de minicomputadores no Brasil nos anos 1970. (DA COSTA MARQUES, 2000) Esses grupos que justapõem atores-redes são cruciais para a efetivação de controles socioeconômicos via conselhos gestores.

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ChatGPT Health: IA e saúde aos olhos da mídia

No mundo, 230 milhões perguntam sobre saúde à plataforma da Open AI. Uma minoria entende como funciona. Seu novo produto promete analisar dados médicos dos usuários. Como a IA impacta a cultura, os meios de comunicação e as políticas públicas de saúde?

Um comunicado oficial à imprensa ampliado, replicado das agências internacionais e na editoria de tecnologia. Foi dessa maneira que os principais sites nacionais, como G1UOL e Folha, anunciaram o lançamento do ChatGPT Health, no último dia 7. 

Onde não há crítica, sobra publicidade. O novo produto da Open AI promete “uma nova experiência em saúde”. Permitirá conexão com apps e tecnologias vestíveis, como pulseiras e smartwatches, para coletar indicadores de saúde e cruzá-los com dados de exames diagnósticos alimentados pelos usuários, entregando, assim, indicadores constantemente atualizados e comentados. A partir dessas informações, poderá oferecer orientações para serem avaliadas em consultas médicas. Uma vez que sabe das condições de saúde preexistentes, poderá informar quais planos e operadoras de saúde são mais recomendados. Completam o pacote dietas e rotinas de treinos e de bem-estar. Tudo isso na palma da sua mão e acionado por voz, personalizado, feito especialmente para você, protegendo e conectando você, sempre com muita segurança e privacidade


É o que vendem, ou melhor, o querem vender, pois a ferramenta ainda não está disponível. No momento, apenas um seleto grupo de usuários assinantes têm acesso ao serviço, em fase final de testes. Para as pessoas interessadas e curiosas, foi aberta uma fila de espera – estratégia que gera burburinho e ajuda a OpenAI a prever o interesse e o retorno financeiro do investimento. 

Parodiando o meme, são muitas camadas envolvidas neste informe publicitário travestido de notícia, possibilitando a leitura crítica não só pela chave da comunicação e saúde, mas também pelos estudos de cultura, de economia política da comunicação, da tecnologia, da gestão pública e do debate sobre soberania e dependência política e econômica em meio à nova desordem mundial. Vamos, então, descascá-las. 

A cultura e os usos culturais que mobilizam a IA

Observando pela lente dos estudos culturais, a Inteligência Artificial é a fronteira entre tecnologia e cultura das mais esperadas, celebradas e temidas. Narrativas de ficção científica, cinema, séries e jogos alimentam imaginários de esperança (utopias de progresso) e medo (distopias de controle); e cumprem, assim, o papel não só de nos entreter, mas também de moldar a percepção de indivíduos e sociedades sobre a IA. Opera-se um processo identitário que parte do imaginário sociotécnico para o campo das emoções e dos valores, fazendo com que robôs, assistentes virtuais e avatares vistos nas telas condensem desejos, expectativas e ansiedades e influenciem como percebemos as relações de trabalho, vigilância, intimidade, conhecimento e saúde.

Se ficarmos só na  indústria do cinema, desde HAL 9000, do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, (1968), passando pela Skynet, de O Exterminador do Futuro (1984), David, de A.I. – Inteligência Artificial (1999) e Samantha, em Ela (2013), estamos sendo preparados há anos para esse convívio com máquinas que respondem e conversam como humanos por meio do processamento de um setilhão de bytes em segundos a partir de diversas base de informação e muito treinamento. 

Não à toa, o ChatGPT, primeiro produto de IA Generativa a chegar para o grande público, registrou alcance recorde de usuários na esteira de seu lançamento, em 30 de novembro de 2022: bateu um milhão de usuários nos seus cinco primeiros dias e cem milhões de usuários em apenas dois meses, marca esta que o TikTok levou nove meses para alcançar e o Instagram dois anos e meio. Estimativas de dezembro indicam que o número de usuários semanais da plataforma oscila entre 800 e 900 milhões de pessoas. 

Desse contingente, a OpenAI informa que mais de 230 milhões de pessoas globalmente fazem perguntas sobre saúde, dessas, 40 milhões todos os dias, justificando, assim, a pesquisa e desenvolvimento ao longo dos últimos dois anos para a criação dessa nova ferramenta dentro da plataforma.

O Brasil ocupa o 3º lugar no ranking de acesso ao ChatGPT, algo perto de 40 milhões de usuários. No entanto, o consumo, uso e percepção acerca da Inteligência Artificial apresentam grande desigualdade, como indica pesquisa realizada pela Fundação Itaú e DataFolha em julho de 2025, a partir de uma amostra de 2.798 brasileiros. 


Mesmo que a maioria dos entrevistados (82%) já tenha ouvido falar sobre IA, quase a metade (46%) não compreende seu significado. Dos que disseram entender o que é a IA (54%), a maior parte (36%) fez menções relacionadas às finalidades – somente 14% responderam mais acertadamente como ela opera. A IA é presente e utilizada, principalmente, via mídias sociais e apps e plataformas de consumo cultural, como buscadores de filmes e músicas. Numa pergunta estimulada que lista de 12 situações de uso da IA, aspectos ligados à saúde (monitorar atividades físicas, encontrar sugestões de dietas ou auxiliar no diagnóstico médico) aparecem na 6ª posição (44% de citações). Do outro lado da balança, a falta de interesse é a principal resposta entre aqueles que não utilizam ferramentas de IA.

Mídia e IA: entre alianças e disputas

Esse cenário de uso objetificado da IA junto com falta de interesse tem motivos múltiplos. Entre eles, o modelo de produção noticiosa da mídia corporativa brasileira. Se ela faz parte e exerce poder dentro do que entendemos como opinião pública (mesmo que não sozinha e de forma cada vez mais difusa), saber como jornalistas e, principalmente, como as empresas de mídia têm enfrentado essa realidade ocupa aspecto central no nosso debate. 

Do ponto de visto da cobertura, a pesquisa Artificial Intelligence in Brazilian News: a Mixed-Methods Analysis, realizada por pesquisadores da Universidade de Cambridge, de 2024, mostra que o tratamento dado ao lançamento do ChatGPT Health na mídia brasileira é a regra. Os pesquisadores Raphael Hernandes e Guilio Corsi analisaram as notícias produzidas por 13 veículos de mídia, de portais nacionais e regionais a revistas e mídia especializada em tecnologia, durante o ano anterior. Por meio de ferramentas computacionais, puderam identificar as temáticas as quais matérias associavam a  IA, a origem dos textos, os atores mais citados e os episódios relacionados. 

A pesquisa conclui que a cobertura noticiosa sobre IA no Brasil tem predominância relacionada à sua aplicação no trabalho e à discussão de novos produtos, sendo que a maioria dos textos são replicados de agências internacionais de notícias. Como consequência, a alta concentração de fontes ligadas à indústria reproduz o padrão internacional. Segundo Hernandes e Corsi, tal padrão reforça as agendas dos atores corporativos e reduz a compreensão pública sobre os impactos sociais mais amplos da IA. Ainda que pautas como desinformação e deepfake nas eleições e seu impacto na democracia tenham marcado presença no noticiário brasileiro relacionado à Inteligência Artificial, um indicativo da relevância das pautas locais no mapeamento, os pesquisadores apontam que elas aparecem de forma episódica dentro do conjunto das publicações. 

Tal padrão tem esteio direto também nos interesses econômicos e políticos dos conglomerados de mídia. Dados do Instituto Reuters para o estudo do jornalismo informam que mais de 56% dos veículos já utilizam as mais diversas ferramentas de IA na produção de suas matérias e reportagens, e que a maioria absoluta dos editores apoiam o uso dessas nas tarefas no que se chama, no jargão jornalístico, de “cozinha da redação”: todo o trabalho de aferição de dados e metadados, transcrições, checagem de serviços, preços e endereços de estabelecimentos, e assistência à edição do texto final. 

Contudo, os mesmos editores que apoiam largamente esse uso são os representantes diretos dos CEOs e proprietários. Estes, ora direta ou indiretamente, ora de forma surda, ora audível, travam uma queda de braço com as gigantes da tecnologia pelos direitos autorais e comerciais dos conteúdos replicados largamente pelas IAs. O lançamento da iniciativa “Integridade das Notícias na Era da IA”, em setembro de 2025, foi a última movimentação da mídia corporativa global nessa disputa. 

Segundo a Associação Nacional de Jornais (ANJ), uma das signatárias, a iniciativa “incentiva os desenvolvedores a contribuírem e garantirem que a Inteligência Artificial seja segura, confiável e benéfica para o ecossistema de notícias e para o público”. A leitura do manifesto empresarial dá a perceber, contudo, que tal incentivo vem no tom de cobrança: exige que o conteúdo de notícias só deve ser utilizado em modelos e ferramentas de IA generativa com a autorização do detentor dos direitos originais; que o valor desse conteúdo deve ser justamente reconhecido – leia-se: remunerado – quando utilizado para beneficiar terceiros; que as fontes noticiosas devem ser visíveis para os usuários e plurais, abarcando diversos tipos e perfis de veículos de mídia. Por fim, é feito o convite a um diálogo formal entre as empresas de tecnologia e as empresas de mídia em prol de uma IA com padrões de segurança, credibilidade e transparência.

A briga entre esses dois segmentos corporativos vai aumentar ainda mais com a adoção em massa de publicidade pelas plataformas de Inteligência Artificial. A OpenAI, que havia adotado e rapidamente freado a oferta de links publicitários nas suas respostas em 2024, informou a retomada dos anúncios na segunda semana deste janeiro. Os anúncios aparecerão na parte inferior das respostas do ChatGPT, claramente identificados e somente se forem relevantes para a consulta. A matéria da Folha, replicada de agência internacional, conta que, para San Altman, CEO da empresa, “o conteúdo publicitário não pode comprometer a confiabilidade e objetividade das respostas”.

Imagine agora seguinte cena: um usuário do SUS, acompanhado pela Clínica da Família, vinculado a um determinado itinerário terapêutico debatido por profissionais de saúde no matriciamento do caso, resolve assinar o ChatGPT Health e passa a alimentar a plataforma com seus exames diagnósticos; informar os medicamentos receitados, as dietas e orientações recebidas para confirmar se as condutas que recebe de orientação da equipe são adequadas. A cada nova busca, publicidades de medicamentos similares e de alimentos para a sua dieta surgem na tela… 

Quais impactos uma ferramenta de IA com uma vastíssima capacidade de cruzamento de informações, pensada e orientada para o mercado do norte global, pode gerar na percepção de saúde desse usuário, no SUS, na saúde brasileira e nos aspectos da gestão pública e da soberania das nações? Essas questões ficarão para a segunda parte dessa coluna.

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