POLITICA

 


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Gilberto Kassab e o jogo dos sete dados

Presidente do PSD se cacifa ao pleito de 2026 em um jogo ousado. Se antecipa de olho no segundo turno, momento em que “seus” votos serão disputados. Surfa na diáspora no espectro da direita e mira 2030. Análise de um folclore vivo da política brasileira

Diz o folclore político de Brasília que se você estiver em uma festa e um incêndio irromper, e em meio à confusão você vir o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab saltando por uma janela, não entre em pânico e não hesite: vá atrás dele. Ele sempre cairá em local seguro. Alea jacta est.[1]

Gilberto Kassab é desses políticos que fazem esse folclore se transformar em um dado de realidade. Um breve resumo mostra que a trajetória política de Gilberto Kassab confirma o folclore. Sempre haverá um padrinho, um acordo político, um local seguro, no qual ele e seu grupo de comandados se acomodarão e a regra básica é que não há compromisso com mandatos e tarefas por longos períodos. Se a política é como nuvem no céu, Kassab é um dos maiores especialistas em previsão meteorológica da política nacional.

O quadro abaixo é uma tentativa de demonstrar a veracidade dessa assertiva.[2]


AnoAção
1984Participação no Fórum de Jovens Empreendedores da Associação Comercial de SP criado por Guilherme Afif Domingos[3]
1986Eleito deputado constituinte pelo PL (Partido Liberal, de Guilherme Afif Domingos)
1993Eleito vereador em São Paulo pelo PL (Partido Liberal, de Guilherme Afif Domingos)
1994Eleito Deputado Estadual para a Assembleia Legislativa pelo PL, com pouco mais de 36 mil votos (mandato não concluído)
1997Secretário Municipal de Planejamento de São Paulo no Mandato de Celso Pitta (PPB)
1995Filiou-se ao PFL – Partido da Frente Liberal, sigla que integrou por mais de duas décadas (foi vice-presidente da executiva estadual em SP, presidente do diretório municipal em SP)
1998Eleito Deputado Federal para a Câmara dos Deputados com 92.866 votos
2000Vice-líder do PFL – Partido da Frente Liberal
2003Reeleito Deputado Federal para a Câmara dos Deputados com 107.811 votos (deixou o cargo em 2005)
2004Eleito como Vice-prefeito na Chapa com José Serra (PSDB), chapa vitoriosa nas eleições com mais de 54% dos votos (3.330.179)
2005Assumiu a Vice-prefeitura na capital paulista
2006Assumiu em março de 2006 a Prefeitura de São Paulo (encerrou o primeiro mandato com 56% de aprovação)
2008Reeleito para a Prefeitura de São Paulo, sendo o primeiro prefeito da cidade que conquistou a reeleição em São Paulo (encerrou o segundo mandato com apenas 27% de aprovação)
2011Indicado Ministro das Cidades no Governo Dilma Roussef
2016Indicado Ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações por Michel Temer
2018Apoiou a candidatura de Geraldo Alckmin e chegou à Secretaria da Casa Civil durante o mandato de João Dória (PSDB) no governo paulista, mas pediu licença do cargo antes de assumi-lo.
2021Declarou que o ex-presidente Jair Bolsonaro flertava com o golpismo
2022Adotou neutralidade nas decisões do PSD em relação às eleições para Presidente (Tarcísio contou com apoio dele nas eleições de 2022 para governador de SP (“a grande revelação da política brasileira”; Kassab não descarta apoiá-lo para uma possível candidatura à Presidência da República em 2026, caso o PSD não lance candidato.)
2023Assumiu a Secretaria de Governo e Relações Institucionais da gestão Tarcísio de Freitas, em SP
2026Lançou Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Romeu Zema como pré-candidatos à Presidente da República (declarou que Tarcísio é um potencial candidato a presidente nas eleições de 2030)
Fontehttps://ndmais.com.br/politica/gilberto-kassab/ (elaboração do autor).

Gilberto Kassab se explicita na seguinte afirmação: <<Em política, não é correto dizer ‘nunca’>>[4]. ‘Dono’ do Partido Social Democrático, que foi fundado por ele e por seu mestre, Guilherme Afif Domingos, em 2011 após o fim do PFL, o PSD conta hoje com 45 deputados na Câmara dos Deputados e 13 senadores, sendo que o partido elegeu o maior número de prefeitos nas eleições municipais de 2024: foram 887 prefeituras, mesmo com ‘apenas’ (!!!) 470.576 filiados compondo o quadro da sigla.

O ‘dado foi lançado’ por Kassab. Tentemos entender o que busca o Presidente do PSD. Como um bom ‘jogador’, o ‘dado’ de Kassab não tem seis lados, tem sete: (1) Tarcísio de Freitas; (2) Ratinho Júnior; (3) Ronaldo Caiado; (4) Eduardo Leite; (5) Romeu Zema; (6) Flávio Bolsonaro, esse quase no rabo da fila, pois Kassab não acredita na possibilidade de vitória do filho 01 de Jair Bolsonaro; e (7) Luiz Inácio Lula da Silva, naturalmente, pois o Presidente do PSD está em busca de um ‘lugar seguro’ para estar entre 2027/2030. Lula é a sétima face do ‘dado’ de Kassab.[5]

Em sã consciência, quem lança três pré-candidatos em um só dia, de uma única vez? A resposta é: Gilberto Kassab. Naquele dia, praticamente em rede nacional, Kassab se cacifou para o pleito de 2026, em detrimento dos três sonhadores. Arrisco afirmar que nenhum deles será Presidente da República em 2026, quiçá serão candidatos pelo reduzido potencial de vitória. Analisaremos, brevemente, a seguir, esse cenário. Kassab sabe disso e os usou de maneira magistral, todavia vil, em razão de sua extrema habilidade. Os três pareciam crianças querendo comer os brigadeiros da festa de aniversário antes de ‘cantar os parabéns’. Kassab busca seu ‘lugar seguro’ – para ele e para o PSD – e isso independe de cores partidárias. Lançará um dos três ou um quarto nome que se mostre mais competitivo.

No fundo a estratégia de Kassab é a indicação do candidato a vice na chapa de Lula. Como essa cadeira está firmemente ocupada por Geraldo Alckmin, do PSB (não esqueçamos, o vice-presidente e Kassab são aliados desde os tempos de PSDB), e nosso homem do tempo está de olho no segundo turno, momento em que ‘seus votos’ serão disputados por quem lograr êxito em ocupar essas duas vagas!

Ao ‘pular mais essa janela’ Kassab não o fará sem saber onde vai cair. Evita descartar o governador de São Paulo, confirma a escolha não de um nome da sigla presidida por ele, mas de três nomes, ao mesmo tempo, todos eles sorridentes na foto do ‘velório eleitoral’, e deixa aberta uma porta política para as eleições de 2026. Mas observemos como funciona a cabeça do nosso ‘meteorologista’, para alguns um oráculo: Kassab também chegou a declarar que Tarcísio de Freitas é um potencial candidato a presidente nas eleições de 2030, pois sabe que Tarcísio não trocará o certo (sic) pelo duvidoso. E Kassab joga duplo: fichas nas eleições de 2026, mas de olho em 2030, quando certamente teremos um cenário sem Lula!

Alguns diriam: Kassab está perdido. Não! O PSD tem o seu rumo. Ou é com o governador Tarcísio de Freitas (SP), ou com o governador Ratinho Júnior (PR), ou com o governador Eduardo Leite (RS) ou com o governador Ronaldo Caiado (RS). Como costuma dizer Kassab, “isso é algo que está pacificado dentro do partido e, portanto, vamos aguardar [a decisão do Tarcísio]”. Diante da verdadeira diáspora que graça no espectro da direita brasileira, com inestimável colaboração de gente como o Dep. Nikolas Ferreira, o menino maluquinho (mil perdões, Ziraldo) e do explosivo pastor atômico Silas Malafaia (que ama Tarcísio e Michele, que não ama Flávio, que até amaria outro qualquer, desde que não seja da esquerda), a tarefa eleitoral de Kassab e de seu PSD o leva por uma trilha na qual poderá se encontrar com Lula no segundo turno, se houver.

Segue um breve resumo de como vemos a posição de Gilberto Kassab em relação aos nomes hoje colocados no tabuleiro eleitoral, sujeito a muitos complementos e críticas dos leitores:


Tarcísio de Freitas (SP): mantidas as condições de temperatura e pressão, será candidato à reeleição ao Governo do Estado de São Paulo, para tristeza de mais da metade da Faria Lima e de 100% da mídia conservadora nacional.

Ratinho Júnior (PR): pensemos, com coragem, onde o Governador do Paraná teria votos além do Estado do Paraná, em parte de SP e no Centro-Oeste do agro, além do Paraguai, onde seu pai finca pés e pretende investir a poupança acumulada com seus anos de TV? Ratinho, como outros políticos, caminhou por diversas siglas (PSB, PPS, PSC, PSD) e conta com o apoio do pai nessa pragmática miríade partidária. Segundo Thomas Traumann, de O GLOBO[6], “apesar de ter como assessor o ex-presidente do BNDES Paulo Rabello de Castro, Ratinho Junior não pretende ter, no curto prazo, um porta-voz econômico.” E o que propõe?

Eduardo Leite (RS): conseguiria justificar para o eleitor brasileiro que o caos no RS se deu apenas em razão do ciclo meteorológico (chuvas) colocando a culpa em Deus e São Pedro? Eduardo Leite se filiou ao PSD após 24 anos no PSDB. Filiação em cerimônia realizada em São Paulo, na qual foi anunciado como pré-candidato à presidência da República em 2026.

Ronaldo Caiado (GO): conseguiria convencer o eleitor nacional que seu permanente estado de ódio à esquerda (desde o apoio familiar ao Golpe de 1964, até os tempos da falecida UDR) que seu governo resolverá os problemas nacionais e que ‘bandido bom é bandido morto’? Ronaldo Caiado deixou o União Brasil e se filiou ao PSD mirando a presidência da República em 2026, sonho divulgado aos quatro ventos, o tempo todo. E Goiás que aguarde!

Romeu Zema (MG[7]): Kassab viabilizaria nacionalmente o nome do Governador mais vinculado ao bolsonarismo e que transformou a dívida do Governo de MG em um montante impagável? Zema defendeu a adesão ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF) para suspender o pagamento da dívida, mas enfrentou críticas por não ter pago um centavo do montante em seus seis anos de mandato. A dívida acumulada em dezembro de 2024 era de mais de R$188 bilhões, refletindo decisões históricas que moldaram a situação fiscal do estado. O Governador de MG é filiado ao Partido Novo (NOVO) desde janeiro de 2018, após ter sido associado ao Partido Liberal (PL).

Flávio Bolsonaro (RJ): se os candidatos utilizarem nos debates metade do conteúdo das matérias publicadas pela jornalista Juliana Dal Piva (“Anatomia da Rachadinha”; “A vida secreta de Jair”; e “O negócio do Jair – a história proibida do clã Bolsonaro”), para quem a candidatura de Flávio Bolsonaro é kamikaze, ao sair derrotado na campanha eleitoral provavelmente será lembrado como aquele que ‘apagou a luz’ do bolsonarismo.

Luiz Inácio Lula da Silva (BR): a visão pragmática de Kassab se assentará no cenário econômico nos anos de 2025/2026, ou seja, mantidos os níveis atuais de emprego, renda, inflação controlada, reservas internacionais elevadas, exportações crescentes, respeitabilidade internacional em alta etc, e o eleitor demonstrando um rumo no qual pretende seguir, Kassab não hesitará em escolher aquele que lhe garantirá o tal ‘lugar seguro’ nos próximos anos, mesmo que esse nome seja o de Lula.

Mas o que os dados do TSE mostram? Dentre vários outros aspectos, o gráfico abaixo indica que  o MDB  continua como o Partido político com o maior número de filiados  do País (2.0276.655), seguido pelo PT (1.653.361)[8]. Mas para o objetivo das análises aqui pretendidas, cabe destacar os filiados ao PSD (470.576). E mais: o Brasil conta com um eleitorado apto a votar, em 2026, na ordem de 155.912.680, distribuídos por 5.569 municípios. Temos mais de meio milhão de seções eleitorais (500.341). Portanto, é nessa capilaridade que os partidos políticos apostam e estão de olho.

Filiação por Partido Político

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE). In https://sig.tse.jus.br/ords/dwapr/r/seai/sig-eleicao-filiados/home?session=1975957503982 (Acessado em 16.02.2026)

Cabe perguntar, então: é mais importante ter um maior número de filiados ou estar com os dois pés fincados em 887 prefeituras? Gilberto Kassab sabe que os dois aspectos contam muito. O espaço de ação de Kassab nas eleições ganha maior relevância na realização de um segundo turno em 2026, o que cacifará ainda mais o PSD. Ele sabe disso! Mas na hipótese das eleições se definirem no primeiro turno, o encontro entre Lula e Kassab já está marcado para os corredores do Congresso Nacional, onde o seu peso político certamente garantirá ao Presidente eleito a possibilidade de uma maioria parlamentar almejada e ao PSD (Kassab e seu grupo) certamente mais que o Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovações (MCTI) ou algo como o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR).

Para além dos nomes e das inúmeras especificidades das eleições nos diversas Estados, importante olharmos em específico para MG, RJ e SP (para alguns o verdadeiro Triângulo das Bermudas das eleições presidenciais de 2026), vis-à-vis o grande peso que a Região Nordeste assumiu nas últimas eleições nacionais e onde o pré-candidato Luiz Inácio Lula da Silva tem vantagem inegável.

Com os dados das eleições presidenciais de 2022, imaginando um cenário de eventual segundo turno, analisemos a hipótese em que Lula disputará a reeleição para seu 4º Mandato Presidencial com um candidato capaz de aglutinar todas as forças anti-PT. Vejamos a votação nominal daquele ano:

Unidades da FederaçãoVotação nominal (total)Participação no total dos eleitores (%)Votação Lula (%)Votação Bolsonaro (%)
São Paulo (SP)44.085.93220,144,7655,24
Minas Gerais (MG)22.779.25410,450,2049,80
Rio de Janeiro (RJ)16.760.4887,743,4756,53
Nordeste (NE)66.232.23730,268,2931,71
Demais Estados69.266.15031,640,0859,92
Brasil (BR)219.124.061100,0
Fonte: Elaboração própria (dados do TSE[9] e UOL[10])

O que os dados nos permitem supor? Faço breves comentários que levam em consideração a vitória obtida para o terceiro mandado de Lula (2022) e os resultados obtidos até aqui em seu governo (2023/2026):

  • O peso da vitória de Bolsonaro, por exemplo, no Acre, Rondônia e Roraima (com mais de 70%) deve ser relativizado/minimizado frente à vitória obtida por ele na Região Sul, onde certamente foi muito mais relevante para o seu resultado eleitoral nacional em razão do número de eleitores no Sul (região na qual obteve desempenho médio superior a 62%);
  • SP e RJ permanecerão centrais para o bolsonarismo, podendo sair daí uma eventual vitória do candidato apoiado pelas forças conservadoras, incluso o PSD de Kassab;
  • Lula e sua coligação, por sua vez, terão a tarefa de reduzir a diferença verificada em SP e RJ (em 2022) e ampliar a diferença alcançada em MG, bem como no Amazonas (2.647.123 eleitores) e principalmente no Pará (6.078.857 eleitores); e por fim
  • Lula poderá crescer no Nordeste (região com cerca de 30% do eleitorado), em particular nos estados com maior número de eleitores: Bahia, Pernambuco, Ceará e Maranhão. Juntos são mais de 30 milhões de eleitores!   

Os dados eleitorais permitem perguntar: Quem dos 6 lados do dado de Kassab tem a possibilidade de ter mais votos que Jair Bolsonaro em SP, RJ e MG? Quem dos pré-candidatos se aproximaria da votação de Lula no Nordeste? Quem dos ‘escolhidos’ teria melhor desempenho nas eleições como candidato do PSD? No cenário de hoje, Kassab está ciente que nenhum deles. Kassab não deseja fazer essa aposta ainda. Aguardará o tempo melhorar para fazer a semeadura em abril, para colher um lugar seguro a partir de outubro de 2026! 

No período de definição de Kassab por um candidato anti-Lula, serão decisivos os egos de Ratinho, Caiado e Eduardo Leite (quem viver, verá); uma possível reviravolta de Tarcísio em SP (só se a Rede Globo apostar tudo); um ‘novo’ Zema (improvável); ou um Flávio Bolsonaro livre das consequências do pai preso na Papudinha e da madrasta candidata (muito difícil que vejamos mudanças nesse cenário). Tudo isso poderá refletir até onde todos funcionarão como peças no jogo de dados que interessa ao próprio Kassab e ao PSD.

Minhas conclusões

Kassab ‘sente’, como poucos, o cheiro de voto.

Kassab ‘perdeu’ Tarcísio de Freitas para São Paulo.

Kassab ‘visualizou’ que não conseguirá indicar o vice na Chapa de Lula.

Kassab ‘definiu’ que Caiado, Ratinho e Zema não devem atrapalhar seus planos.

Kassab ‘buscou’ – e ao que tudo indica já achou – uma janela para pular, garantindo ao PSD e ao seu grupo um ‘lugar seguro’.

Kassab ‘sabe’, como Malafaia e Nikolas (que já se encarregaram de ‘botar fogo no parquinho da direita’), da imensa dificuldade que será explicar para os eleitores a Fantástica Fábrica de Chocolate de Flávio Bolsonaro; as Rachadinhas; a mansão brasiliense comprada com o beneplácito do Banco de Brasília, aquele banco ligado aos tentáculos do GDF no caso BRB-Master/Vorcaro; além da aquisição das dezenas de propriedades imobiliárias compradas com ‘dinheiro vivo’ pela família Bolsonaro.

Kassab ‘introjetou’ que em um possível quarto mandato de Lula será fundamental um Parlamento muito menos hostil e muito mais organizado e os dois se beneficiarão dessa simbiose: cada um cuidando da sua Presidência (um no Executivo, o outro no Legislativo).

Kassab ‘assistiu’ ao desfile das Escolas de Samba na Marquês de Sapucaí (RJ). ‘A arte não é para covardes’, disse o Presidente da Acadêmicos de Niterói, pois o carnaval reflete a diversidade e a identidade nacional.

Kassab ‘viu’ que muita gente gostou e cantou o lindo samba enredo da Acadêmicos de Niterói, a despeito da cobertura televisiva desigual, o que não impediu o momento mágico em que ecoou por toda a avenida o samba enredo da energia e da vitalidade dessa festividade chamada carnaval:

Olê, olê, olê, olá
Vai passar nessa avenida mais um samba popular
Olê, olê, olê, olá
Lula, Lula

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Trump e Projeto Paleoconservador de poder

Ataque à Venezuela revela novo paradigma intervencionista. Em vez da “defesa da democracia”, usada pelo velho establishment, procura-se agora seduzir o eleitorado com “retorno financeiro para os EUA” com “risco zero”. Mas haverá “imperialismo popular”?

Ao contrário do que circula na memética da internet, em seu pronunciamento de 3 de janeiro sobre a captura de Nicolás Maduro, Donald Trump não mencionou uma única vez a palavra “democracia. Essa omissão marca diferenciação com o paradigma neoconservador, cujas intervenções — Iraque, Afeganistão e Líbia, por exemplo — justificavam-se precisamente pela retórica de exportar direitos individuais.

Trump, no entanto, é um paleoconservador. E, como tal, inaugurou com a ação na Venezuela um novo modelo de intervenção externa: vendido como de risco zero (“nenhum americano foi morto”), justificado por um cálculo de retorno financeiro (“vamos receber recompensas” pelo petróleo) e, sobretudo, ancorado inteiramente na e pela política interna dos Estados Unidos.

Para decifrar essa mudança de paradigma, é necessário recuar às raízes da fragmentação da direita americana pós-Reagan e ao surgimento de duas correntes rivais: o neoconservadorismo e o paleoconservadorismo.


A cisão: neoconservadores vs. paleoconservadores

O neoconservadorismo emergiu como uma coalizão de intelectuais, empresários, direita cristã e setores da classe média, que elegeu Ronald Reagan em 1980. Sua plataforma fundia valores morais tradicionais ao neoliberalismo econômico, defendendo uma projeção externa dos EUA como potência dominante no combate à União Soviética.

Com o fim da era Reagan e a queda do Muro de Berlim, essa coalizão perdeu seu líder agregador e seu inimigo externo primordial. Com isso, ocorreu uma cisão que marcou o início de uma disputa pela alma da direita americana.

Os neoconservadores, de um lado, passaram a advogar pela liderança global; os paleoconservadores, por sua vez, defendiam uma visão de país voltada para dentro, centrada na suposta homogeneidade étnico-cultural e no cristianismo — uma reação ao que viam como um globalismo desenraizante.

A consolidação do neoconservadorismo intervencionista
Os atentados de 11 de setembro deram impulso definitivo à “política externa com fins morais”, justificada com base em uma suposta missão civilizatória. Sob George W. Bush, figuras como Elliott Abrams e Paul Wolfowitz colocaram a “guerra ao terror” e a promoção ativa da democracia no centro da ação dos EUA — o que foi criticado como um imperialismo messiânico.

O retorno da “velha direita”: raízes e princípios do paleoconservadorismo

Do outro lado da cisão, os paleoconservadores se reivindicam herdeiros do “conservadorismo tradicionalista” ou da “Velha Direita” do pré-Segunda Guerra, inspirada em figuras como Russell Kirk e Robert Nisbet.


Para pensadores dessa corrente, o multiculturalismo e o “politicamente correto” seriam expressões de uma “teocracia secular”, do globalismo e do marxismo cultural, hostis à dita identidade Ocidental americana. Essa visão se traduz em um anti-intervencionismo geopolítico e um nacionalismo cultural radical no plano doméstico.

Pat Buchanan, outro pilar do movimento, direcionou sua crítica à elite transnacional e ao livre-comércio, que teriam sacrificado a soberania nacional e deixado para trás os “americanos esquecidos” — a classe trabalhadora cujos empregos e comunidades foram erodidos pela globalização. Sua resposta era um nacionalismo econômico que restabelecesse a centralidade do trabalho americano.

É precisamente dessa tradição, como argumenta Gottfried (2020), que brota a genealogia intelectual do trumpismo e seu slogan “America First”. Trump dialoga diretamente com os “esquecidos” de Buchanan. Suas tarifas comerciais e sua retórica de recuperação industrial são a expressão prática do nacionalismo econômico paleoconservador.

O sequestro de Maduro: a máquina jurídica e a lógica do negócio

A intervenção não se justificou por um proselitismo democrático, mas pela primazia da política interna, expressa em três vetores: a rejeição do custo humano das guerras tradicionais, o combate a ameaças domésticas e a lógica do retorno financeiro.

O primeiro vetor foi marcado pela ênfase obsessiva em que “nenhum americano foi morto” — a operação foi vendida como um ato de força sem risco. O segundo vetor definiu o modus operandi: não uma declaração de guerra, mas a captura de um “narcoterrorista”, enquadrado como criminoso comum em um processo do Distrito Sul de Nova York. A justificativa foi ancorada em índices domésticos de violência, conectando o inimigo externo às “gangues” que aterrorizam cidades americanas.

O terceiro vetor, porém, desnudou o cerne da intervenção paleoconservadora. Trump foi direto ao ponto: “Nós vamos administrar o petróleo”. Ao prometer que as riquezas venezuelanas trarão “recompensas” aos EUA, apresentou a ação como a recuperação de um patrimônio “roubado” e a gestão de um empreendimento lucrativo.

Dessa forma, Trump buscou legitimidade não perante uma comunidade internacional, mas perante um eleitorado definido por ressentimentos e inseguranças materiais. Sua linguagem falou diretamente aos que se sentem traídos pelo globalismo, transformando uma operação militar distante em uma resposta concreta — e potencialmente rentável — para suas aflições domésticas.

A criação de Trump

O sequestro de Maduro revela um aparente paradoxo: como um movimento de raízes anti-intervencionistas como o paleoconservadorismo pode protagonizar uma ação militar tão ousada? A resposta é que Donald Trump não renegou a intervenção; reengenheou-a. Ele criou o modelo paleoconservador de projeção de poder: uma operação de “polícia global” conduzida pelo Departamento de Justiça, justificada por uma narrativa estritamente doméstica e transacional.

Essa reinvenção, porém, também se insere numa tradição histórica que vai além da mera Doutrina Monroe. Coerente com a reapropriação da “Velha Direita” pelos paleoconservadores — Trump resgata o intervencionismo hemisférico da era pré-Guerra Fria: é uma certa volta à “Diplomacia do Dólar” de William H. Taft — a defesa agressiva de interesses econômicos — e ao “Big Stick” de Theodore Roosevelt, agora executado com helicópteros de assalto e supremacia cibernética. 

A operação consolida a paleoconservadorização da política externa dos Estados Unidos. O “America First” se converte no manual operacional de um novo (e antigo) paradigma. Trump não encontrou uma fórmula para acabar com as intervenções norte-americanas; encontrou, talvez, a fórmula para fazê-las, novamente, populares.

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Doutrina Donroe ou Frankenstein neoliberal?

Exame da nova Doutrina de Segurança Nacional dos EUA. Crítica às elites, ao globalismo e às instituições internacionais “usurpadoras” não esconde o essencial: aposta na força, ideia de que não há alternativase crença na primazia dos mercados

Título original: A Doutrina Donroe e o desenho de uma nova ordem global neoliberal: America First

Estamos longe de ser especialistas em Venezuela e em relações internacionais. Mas os acontecimentos que atravessaram a América Latina — porque é de América Latina que se trata neste momento em que assistimos ao sequestro do presidente Nicolás Maduro — no quadro da governamentalidade Trump 2.0, nos colocaram, mais uma vez, diante da relação entre neoliberalismo e crise; e de uma pergunta: ainda é neoliberalismo? O ataque militar Trump 2.0 à Venezuela é orientado pelo espectro do neoliberalismo, classicamente entendido como globalismo?

A leitura do documento National Security Strategyof the United States of America — que contém o Trump Corollary to the Monroe Doctrine, ou simplesmente, Doutrina Donroe,e que fora publicado em novembro de 2025 — parece indicar a complexidade dessas perguntas, que não podem ser respondidas por meio de uma alternativa “sim ou não”. É um documento que reestrutura a ordem internacional, desenhada a partir de 1945, no pós-Guerra, para a centralização dos Estados Unidos na geopolítica, como nação forte e respeitada, que garante a paz em todo o mundo — o America First (“America is strong and respected again-and because of that, we are making peace all over the world” — p.2 / “Os Estados Unidos estão fortes e novamente respeitados — e, por causa disso, estamos promovendo a paz em todo o mundo”).


Este ensaio não propõe uma genealogia que responderia de forma definitiva à complexidade dos dias atuais; ele visa apenas oferecer uma primeira incursão no que pode se configurar como uma escalada do neoliberalismo com Trump 2.0. E essa escalada se manifesta pela virulência do niilismo do America First: típico de uma torção discursiva imanente ao neoliberalismo globalista que funde liberdade e autoritarismo, que rejeita os limites institucionais e a autodeterminação dos povos em nome da centralização dos Estados Unidos na geopolítica mundial. Ignora, assim, a relevância da Carta da ONU na garantia da estabilidade e equilíbrio de poder entre os países. Essa torção, que faz com que o neoliberalismo se funde ao autoritarismo, foi o que Wendy Brown denominou como o Frankenstein do Neoliberalismo.

O caso da Venezuela se encaixa nessa virulência niilista. Sabemos que a intervenção dos Estados Unidos na região é conhecida, desde 2002, com a aprovação da tentativa de golpe de Estado contra o então presidente Hugo Chávez.

De lá para cá, a Venezuela vem sendo posicionada como ameaça à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos. Em Trump 2.0, testemunhamos a escalada desse niilismo, com a rejeição do artigo 2 da Carta da ONU e a aplicação do Peace Through Strength desde junho de 2025: a redução de Nicolás Maduro, de presidente da Venezuela a narcoterrorista internacional, chefe do Cartel de Los Soles, ameaçador da segurança americana, foragido e procurado pela justiça americana com recompensa de 25 milhões de dólares pela captura; e a ação da força militar na Venezuela, de sequestro e prisão de Nicolás Maduro. É essa centralização dos Estados Unidos na geopolítica que justifica também a ameaça de anexação da Groenlândia para garantir a defesa nacional e a invasão à Colômbia com uma nova redução no horizonte: a de Gustavo Petro, presidente da Colômbia, a um homem doente, que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos Estados Unidos.

Para construir essa primeira incursão no que pode se configurar como uma escalada do neoliberalismo com Trump 2.0., com a virulência do niilismo do America First, propomos destacar os eixos estruturantes da Doutrina Donroe — ela substitui a Doutrina Monroe (“The Monroe Doctrine is a big deal, but we’ve superseded it by a lot, by a real lot. They now call it the Donroe document”/ “A Doutrina Monroe é algo muito importante, mas nós a superamos — e muito, muito mesmo. Agora eles chamam isso de Documento Donroe” — declaração de Donald Trump em 3 de janeiro de 2026): uma visão ampliada, integrada e centralizada de poder, que articula segurança, liderança tecnológica, economia, cultura, moral e identidade nacional. E que entendemos estar organizada em oito eixos estruturantes:

  1. Redefinição do conceito de estratégia nacional.
  2. Centralidade da soberania, do nacionalismo e do America First.
  3. Segurança nacional ampliada: fronteiras, economia e cultura.
  4. Economia no fundamento da segurança nacional.
  5. Peace Through Strength e predisposição ao não-intervencionismo.
  6. Concorrência estratégica com a China, Rússia e Irã.
  7. Organização regional da estratégia global.
  8. Crítica às elites e às ideologias contemporâneas.

I. Os eixos estruturantes da Doutrina Donroe

O primeiro eixo do documento se refere à redefinição do conceito de estratégia nacional à luz da crítica direcionada à política do pós-Guerra Fria — caracterizada como difusa, idealista e divorciada dos interesses nacionais concretos: ou seja, uma lista de desejos, platitudes vagas, que não definem clara e objetivamente o que os Estados Unidos querem (p.5). Essa redefinição está alicerçada em três perguntas: 1. O que os Estados Unidos deveriam querer?; 2. Quais são os meios disponíveis para alcançá-lo?; 3. Como podemos conectar fins e meios em uma estratégia de segurança nacional viável?

Essas perguntas mostram como a concepção de estratégia nacional deve se fundamentar em uma posição clara a respeito do que os Estados Unidos querem para si e de uma articulação precisa entre fins e meios, baseada em prioridades explícitas e na limitação do escopo da ação externa. Tudo em nome do America First e não da autodeterminação dos povos, defendida pela Carta da ONU.


O que nos leva diretamente ao segundo eixo estruturante da Doutrina Donroe: centralidade da soberania, do nacionalismo — pilares do America First.

National Security Strategyof the United States of America reafirma a soberania nacional como princípio organizador da política externa e de segurança, rejeitando o multilateralismo e as agendas globais (ambos considerados ameaças à autonomia dos Estados). Sendo pilares do America First, a defesa da soberania e do nacionalismo criam um muro de proteção contra tudo o que representa uma ameaça existencial aos Estados Unidos, visando: garantir sua continuidade como república soberana e independente; proteger a população, o território, a propriedade intelectual, a economia e o american way of life (por exemplo, a família tradicional americana) de ameaças internacionais/globalistasenfrentar as ameaças militares e não militares (migrações em massa, espionagem, narcotráfico, influência estrangeira, propaganda).

O que nos leva, diretamente, ao terceiro eixo estruturante da Doutrina Donroe — a segurança nacional ampliada: fronteiras, economia e cultura. É importante destacar a centralidade tecnológica para as forças armadas, tornando-a a mais avançada do mundo, com vistas à dissuasão de conflitos e a vencer guerras de forma rápida e decisiva. Essa centralidade tecnológica se manifesta na superioridade nuclear e no desenvolvimento de sistemas de defesa antimísseis (incluindo o Golden Dome). Mas a defesa da soberania e do nacionalismo compõe uma compreensão ampliada do que vem a ser a segurança nacional, pois integra o enfrentamento às ameaças militares e não militares externas à proteção da economia, do território e do american way of life. Para isso, a segurança nacional ampliada deve cobrir: o encerramento da era das migrações em massa; o controle total das fronteiras e das redes de transporte; a defesa de liberdades fundamentais (especialmente, a liberdade de expressão e de religião) em oposição a agendas, definidas no documento, como elitistas ou tecnocráticas (principalmente, o multiculturalismo, as políticas identitárias e de diversidade e a agenda climática e regulatória).

No escopo da segurança nacional ampliada, chegamos ao quarto eixo estruturante da Doutrina Donroe: a economia no fundamento da segurança nacional.

O documento sustenta que a segurança econômica é a segurança nacional. Para isso, é fundamental que a política econômica seja orientada pela lógica da segurança nacional e se concentre: 1) na garantia de economia forte com uma política comercial baseada na reciprocidade, tarifas e combate a práticas “predatórias”; 2) na proteção das cadeias produtivas e minerais críticos; 3) no fortalecimento da indústria nacional, especialmente a vinculada à defesa; 4) na edificação do setor energético como ativo geopolítico (energy dominance), inseparável da rejeição à agenda climática global; 5) na associação direta entre prosperidade econômica interna, poder global e capacidade militar.

Essa associação direta nos conduz ao quinto eixo: Peace Through Strength e predisposição ao não-intervencionismo.Ele não se reduz a um slogan militar; mas se constitui como um princípio organizador da política externa americana, em que a paz deriva da assimetria de poder claramente reconhecida, e não da confiança em normas e instituições. Neste sentido, o eixo situa a força como fundamento da dissuasão, ou seja, os atores estatais ou não estatais, suficientemente dissuadidos, não ameaçam os interesses americanos. Para isso, a Doutrina Donroe defende o forte investimento militar. Os princípios incluem: a superioridade militar articulada à superioridade econômica, tecnológica, nuclear e de propriedade intelectual; a capacidade de solucionar conflitos com rapidez,evitando sua extensão por tempo indeterminado; realinhamento da diplomacia para a força como condição para a paz; ênfase em burden-sharing, ou seja, os aliados devem assumir maior responsabilidade por sua própria defesa; articulação direta entre força externa e coesão interna por meio de valores como meritocracia e confiança nacional, que garantem a unidade dos Estados Unidos frente a comunidade internacional.

Peace Through Strengthnos conduz ao sexto eixo: concorrência econômica, tecnológica e infraestrutural com China, Rússia e Irã (que fornece armas e drones para países como Venezuela, que ameaçam a segurança do território continental dos EUA). O documento destaca, ainda, a China como principal concorrente no plano econômico, tecnológico e de inovação. O que nos coloca no sétimo eixo: a organização regional da estratégia global.

Esse eixo, na verdade, apresenta a reestruturação da ordem global a partir da centralidade geopolítica dos Estados Unidos — com capilaridade na América Latina. Segundo o documento, após anos de negligência, os Estados Unidos reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental, e para proteger os Estados Unidos e seu acesso a geografias-chave em toda a região. Este “Corolário Trump” à Doutrina Monroe é uma restauração do poder e da centralidade das prioridades americanas em termos de segurança ampliada. Essa organização regional da estratégia global exige uma avaliação crítica das elites e ideologias contemporâneas — o oitavo eixo da Doutrina Donroe.

Trata-se de um dos eixos estruturantes da Doutrina Donroe. O documento diagnostica que as elites intelectuais, desde o fim da Guerra Fria, têm ficado aquém do esperado, com listas intermináveis ​​de desejos ou estados finais almejados; não definiram claramente o que os Estados Unidos queriam; em vez disso, proferiram platitudes vagas. Elites econômicas, políticas e intelectuais teriam produzido um desvio estratégico profundo ao calcularem muito mal a disposição dos Estados Unidos em arcar para sempre com fardos globais, em relação aos quais o povo americano não tinha sinergia alguma. O documento afirma que tais elites superestimaram a capacidade econômica e política dos Estados Unidos de manter simultaneamente um Estado administrativo expansivo e um complexo militar-diplomático global, além de terem aceitado passivamente a transferência de encargos de defesa para os EUA por parte de aliados. Associada a essa avaliação crítica, o documento situa ainda a rejeição das ideologias contemporâneas. Em primeiro lugar, a ideologia da diversidade, equidade e inclusão (DEI) — considerada tóxica aos valores dos Estados Unidos — defende a reinstauração de uma cultura do mérito e da competência. Em segundo lugar, a ideologia do transnacionalismo, que desloca o centro decisório para além do Estado-nação e enfraquece a coragem, a força de vontade e o patriotismo. Essa crítica às ideologias contemporâneas converge para uma leitura mais ampla de declínio moral, cultural e político, em que a perda de confiança nas tradições nacionais, na história e na identidade civilizacional teria enfraquecido tanto a política interna quanto a projeção internacional dos Estados Unidos.

A primeira impressão, após a exposição dos oito eixos da Doutrina Donroe, é que configuram uma escalada do neoliberalismo, fundindo liberdade e autoritarismo, rejeitando os limites institucionais e a autodeterminação dos povos, em nome da centralidade dos Estados Unidos na geopolítica mundial. Isso é feito por meio do exercício unilateral de poder, legitimado por uma gramática moral esvaziada de limites normativos — fusão essa denominada por Wendy Brown de Frankenstein do Neoliberalismo. O traço distintivo da Doutrina Donroe reside nessa fusão niilista da liberdade e do autoritarismo, que corrói a própria ideia de ordem internacional, substituindo-a por uma geopolítica na qual a ausência de limites institucionais deixa de ser exceção e se converte em princípio organizador da política global no século XXI.

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