INTERNACIONAL
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Trump: a perigosa conexão paraguaiaEUA e Paraguai firmaram em dezembro um “acordo de cooperação” civil e militar cujos contornos ainda não estão claros. Compromisso alerta para a presença ampliada de Washington na região – a para as lacunas abertas pela diplomacia brasileira Em 15 de dezembro de 2025, o Chanceler do Paraguai, Rubén Ramirez, se reuniu em Washington com o Secretário de Estado Marco Rubio. Foi divulgada na ocasião a assinatura de um acordo (“Status of Forces Agreement”) de cooperação entre os dois países para intercâmbio de militares e civis com presença no território do Paraguai. Não estão claras no acordo as condições de atuação dos agentes nesse país. Aparentemente, não se trata de instalar bases militares no país vizinho, mas já foi cogitado no passado aproveitar uma pista de pouso na região paraguaia do Chaco para uso de forças norte-americanas. Diz o comunicado divulgado pelo Departamento de Estado:
Em princípio, esse novo entendimento do Paraguai com os EUA pode ser encarado sem grande temor, mas gera preocupação, no contexto das repetidas ameaças do atual governo norte-americano de: retomar o Canal do Panamá, anexar a Groenlândia, ameaçar o Canadá no comércio e na defesa, confrontar com a China e a Europa, concentrar forças no Caribe, cercar a Venezuela, explodir lanchas, confiscar navios, impor tarifas comerciais a esmo, renunciar ao multilateralismo, e muito mais. E por que essa aproximação do Paraguai com os EUA não deve espantar tanto? Porque o Brasil é um parceiro privilegiado. Pra começar, o estoque de investimentos das empresas brasileiras são os maiores no Paraguai. O investimento brasileiro já era grande, no agronegócio e bancos, e disparou com a instalação de indústrias brasileiras e subsidiárias de multinacionais, fabricantes de autopeças, sediadas no Brasil. Na relação bilateral, há um intercâmbio dos Exércitos muito intenso, com a presença constante no país vizinho de pelo menos 40 militares brasileiros em revezamento, para treinamento de tropas, instrução em tiro, cavalaria, manutenção de equipamento e muito mais. A Embaixada do Brasil em Assunção conta com Adidos de Defesa (a cargo do adido do Exército), Marinha e Aeronáutica, Adidos da Receita Federal e de Inteligência. A relação é fraterna, apesar de a sociedade paraguaia nunca ter superado o trauma da guerra da tríplice aliança, mesmo depois de 150 anos. Há uma tendência equivocada de considerar que o Brasil tem uma relação pendular com os países vizinhos. Ou seja, há quem ache que há maior aproximação quando existe afinidade ideológica. Não é assim. Recorde-se que foi o Presidente Alfredo Stroessner, ainda nos anos 1960, que teve a iniciativa de avançar para o leste, em direção ao Brasil, pela rodovia, hoje duplicada, que liga Assunção a Ciudad del Este. Também naquela época já se pensava em construir a usina de Itaipu, que se tornou um símbolo da nossa relação. Vale lembrar que Stroessner faleceu em Brasília, onde está enterrado o seu corpo. O caso do Paraguai é peculiar. À exceção de poucos períodos e breve interregno liberal com o Presidente Fernando Lugo, o Paraguai foi quase sempre liderado por governos do Partido Colorado. Foi o que ocorreu após o impeachment de Lugo, em 22 de junho de 2012, com o voto de 39 Senadores contra 4. Inconformados com a decisão do Senado paraguaio, considerada apressada e mal fundamentada, diversos países sul-americanos, o Brasil inclusive, retiraram os seus Embaixadores de Assunção. No caso brasileiro, a Embaixada ficou a cargo do encarregado de Negócios até novembro de 2013, quase ano e meio depois do impeachment, quando assumi o posto. Tive a oportunidade e o privilégio de reconstruir a relação, interagindo com um governo orientado por uma “cartilha diferente” da brasileira. Apesentei credenciais ao Presidente Horacio Cartes poucos dias depois da minha chegada. Sempre tivemos uma relação afável, com ele e todos os seus ministros, com os quais mantive encontros de trabalho e sociais muito frequentes e cordiais. Mesmo antes da eleição do Presidente Cartes (período 2013/2018), o partido Colorado passou a ser comandado por ele. O atual Presidente, Santiago Peña, foi seu Ministro da Economia e deve a ele a vida política. Horácio Cartes é provavelmente a pessoa mais rica do Paraguai. Seus negócios abrangem todos os setores, desde bancos e casas de câmbio a empresa de taxi aéreo e agropecuária, sendo mais conhecido no Brasil pela fabricação de cigarros contrabandeados para cá. Vale recordar que o ex-Presidente Cartes havia sido objeto de sanções dos EUA (extensivas à família) por parte dos últimos governos democratas dos EUA. As sanções foram levantadas recentemente em mais um sinal de aproximação e apoio do Presidente Trump aos políticos e governos de direita, no nosso entorno e em toda parte. Tudo isso no contexto de promover a disseminação de uma ideologia proclamada libertária e pró-norteamericana. Depois da Argentina, o Paraguai, o Chile, a Bolívia e diversos países centro-americanos vêm sendo cooptados. Na relação Brasil-Paraguai, é relevante que cerca de 350 mil pessoas de origem brasileira (5% da população paraguaia, gaúchos na maioria) vivem no Paraguai, no leste do país, tendo como centro principal a cidade de Santa Rita, onde existe um CTG (Centro de Tradições Gaúchas). O português é idioma corrente na cidade. Os brasileiros emigraram para o Paraguai a partir dos anos 1970, atraídos pelo menor custo da terra. Dedicam-se majoritariamente à produção de grãos para exportação. Nas palavras ouvidas do ex-Presidente paraguaio, “os brasileiros nos ensinaram a plantar soja e iniciaram aqui uma agricultura moderna”. Fenômeno mais recente, dos últimos 10 anos, foi a instalação de indústrias com capital oriundo do Brasil. O principal setor é de autopeças, que se destinam às montadoras brasileiras e argentinas, produzidas por multinacionais para abastecer as congêneres nos países vizinhos. Também se instalaram indústrias de confecção, de calçados, embalagens e plásticos. Têm sido atraídas pela mão de obra e energia barata, além dos impostos reduzidos, favorecidos pelo regime de maquila vigente. Esse regime permite aos produtos de exportação utilizar insumos importados com isenção de impostos, pagando apenas 1% do valor exportado. As maquilas já têm um peso muito importante nas receitas de exportação do Paraguai e geram empregos. Voltando ao “acordo de situação de forças”, possivelmente foi feito porque o Brasil não dá muita atenção ao Paraguai, faz menos do que se espera. Depois de tanto sabermos que a fronteira Paraguai-Brasil é permeável, praticamente sem controle, que assassinatos, tráfico de armas, de mercadorias e pessoas ocorrem diariamente, providências urgentes e necessárias não são tomadas. Parece que o governo e os cidadãos brasileiros se contentam com acusar os paraguaios de leniência com a criminalidade e seguem em frente. Ao ser desconsiderado, o Paraguai se volta a outros aliados, que lhe dão atenção e acodem, inclusive com o propósito de confrontar as pretensões de liderança do Brasil na vizinhança. O entendimento do Paraguai com os EUA se dá exatamente na esfera da segurança, um tema explosivo que será destaque nas eleições presidenciais e estaduais de 2026 no Brasil. O “acordo de situação de forças” deve ser visto também no contexto das eleições brasileiras, e insinua, em particular, as fragilidades de governos sem afinidade nem simpatia com o norte-americano. Em consequência, ao demonstrar que o Brasil falha na segurança interna e externa, também se busca influenciar nas eleições em proveito de candidatos que não sejam “de esquerda”. | A A |
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Trump: A guerra global à vista – e como evitá-laO monstro nasceu e está atuante. Ao violar regras do direito internacional, ele engendra o risco de uma guerra em larga escala. Mas perde aliados e pode enfrentar resistências internas e internacionais. Nelas está a esperança de que o desastre não se realize O mundo inteiro fala e escreve sobre Trump, mas nem todos arriscaram fazer a relação entre Trump e a possibilidade de uma guerra mundial. Não que ele deseje, mas suas ações criam as condições para que tal venha ocorrer. Lembra um pouco o conceito de dolo eventual: o agente pode não desejar produzir o evento, mas age de tal forma que esse evento muito provavelmente será produzido. Por exemplo, alguém que dirige um carro a 150 km por hora na cidade vai acabar matando alguém. Ele pode não desejar essa morte, mas seu comportamento cria as condições para que tal venha a ocorrer. A invasão militar da Venezuela e o sequestro do presidente Maduro, o bloqueio naval para impedir navios comerciais de levarem petróleo venezuelano para seus compradores, a ameaça a Cuba e a Groenlândia jogam lenha na fogueira que aquece a possibilidade de uma guerra em larga escala. A proposta orçamentária de Trump reforça essa suspeita. A previsão de 1.5 trilhão de orçamento militar para 2027 reivindicada por Trump, indica preparação de uma grande guerra. São 600 bilhões de aumento em único ano, mais de 50%. Trump anuncia plano para aumentar em 50% os gastos militares dos EUA; investimento será de 5% do PIB americano. O valor é significativamente maior do que os US$ 901 bilhões aprovados pelo Congresso para 2026. Ninguém pode prever o futuro, mas há indicações de que Trump pode promover ações militares ainda este ano, antes que aumente o seu enfraquecimento politico interno. Trump deverá perder a maioria no Congresso nas eleições “mid term” em novembro próximo. Segundo as pesquisas eleitorais, o Partido Republicano vai perder a eleição e a maioria no Congresso a partir de novembro. Ou seja, como Trump sabe que a tendência é o seu enfraquecimento político dentro dos Estados Unidos, poderá antecipar e acelerar algumas ações que segundo ele são necessárias para garantir o predomínio estratégico militar dos Estados Unidos no mundo. Trump está abrindo muitas frentes de luta ao mesmo tempo: Venezuela, Cuba, Groenlândia, Irã. Ele dá a impressão de que quer resolver tudo este ano, antes da eleição de mid term em novembro , imaginando que depois ele vai se enfraquecer politicamente perdendo a maioria no Congresso. Na realidade, já começou a aumentar seu desgaste interno com a oposição de Governadores, manifestações de protesto e até mesmo acusações de demência. “O presidente Donald Trump está sofrendo de “Demência Fronto temporal”, em estágio inicial”. O alerta é do doutor Frank George, psicólogo e neurocientista PhD do Centro para o Bem-Estar Cognitivo e Comportamental da Universidade de Boulder, no Colorado. Parece não corresponder à realidade a teoria de esferas de influência, segundo a qual os Estados Unidos ficariam com toda a América, a Rússia com a Europa e a China com a Ásia. Os Estados Unidos já definiram a China como inimigo principal, essa teoria não tem base na realidade das relações internacionais. Alguns analistas, porém, não afastam essa hipótese de ver as Américas sob liderança dos EUA, partes da Eurásia sob influência russa e áreas da Ásia e do Pacífico orbitando a China. No plano interno, o desgaste aumenta a cada dia. O assassinato da cidadã americana Renee Nicole Good em Minnesota pela polícia de imigração (ICE) produziu enorme revolta. A Polícia de imigração de Trump recruta supremacistas brancos para acelerar deportação. Propaganda usada pelo ICE usa referências de guerra, movimentos neonazistas e busca recrutas entre defensores do porte de armas. A polícia de imigração do ICE sequestra cidadãos, invade casas, crianças não vão para a escola com medo de sequestro, seus pais têm medo de sair de casa. Enquanto isso, os EUA suspenderam vistos de imigração para 75 países, inclusive o Brasil. No plano externo, Trump abriu nova frente ao anunciar tarifa de 25% para países que fizerem negócios com Irã. Segundo dados do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), o Brasil exportou o equivalente a US$ 2,9 bilhões ao Irã em 2025 e importou US$ 84 milhões. Depois de ameaçar o Irã, Trump recuou, dizendo que “a matança parou”. Teria sido pressionado por países árabes preocupados com a desestabilização do mercado do petróleo em caso de confronto dos EUA com o Irã. Ao romper com as regras jurídicas e políticas internacionais, as ações militares de Trump podem criar condições materiais, geográficas e políticas que aumentam o risco de um conflito sistêmico global. A erosão das regras globais, o desprezo pela ONU, OMC, acordos multilaterais, a valorização da “lei do mais forte”, apontam para a possibilidade de uma guerra mundial. Guerras mundiais começam em geral quando regras são rompidas e deixam de valer. Trump acelera essa erosão e cria condições materiais e geográficas propícias à escalada, Reduz os freios institucionais que evitam guerras globais. Em resumo: Ele não acende o fósforo conscientemente — mas espalha gasolina em vários cantos do mundo. Um bom exemplo é a ameaça à Groenlândia. Trump quer que os EUA adquiram a Groenlândia como prioridade de “segurança nacional” e tem discutido varias opções , com assessores e aliados, inclusive usar as Forças Armadas, sem esclarecer se há planos concretos de invasão imediata. A ideia de uma invasão militar acarretaria resistência internacional e doméstica forte. A Alemanha, Suécia e Noruega anunciaram o envio de tropas para proteger a Groenlândia. A França enviou “elementos militares franceses” (uma quinzena de soldados) e anunciou a criação de um Consulado na Groenlândia. Depois da invasão militar da Venezuela e sequestro de seu Presidente, Trump parece priorizar atos de guerra econômica, como o bloqueio naval no Caribe. Mas ele é imprevisível. Enfim, sua abordagem geopolítica pode aumentar riscos de conflitos sérios, inclusive confrontos militares de maior escala se uma crise sair do controle. Vale lembrar aqui a famosa frase de Antonio Gramsci: “O mundo velho está morrendo, o novo ainda não nasceu. Este é o tempo dos monstros.” O monstro nasceu e está atuante. Controla hoje o Executivo, o Legislativo e parte do Judiciário. Ou seja, age como Ditador. Com Trump, a soberania de uma nação sobre seus recursos naturais, um direito conquistado historicamente e assegurado pelo direito internacional, se transforma em concessão da potência hegemônica. Sua violação das regras da ordem mundial e do direito internacional contribui fortemente para criar condições para a eclosão de uma guerra em larga escala. Mas essa tendência pode ser contrabalançada pelo previsível enfraquecimento político de Trump, o que acarretaria fortalecimento da resistência no plano doméstico e internacional. | A A |
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Esporte, imperialismo e a “neutralidade” seletivaSe a Rússia foi banida de competições internacionais após invadir a Ucrânia, por que os EUA continuam impunes, desde o sequestro de Maduro? E como a FIFA homenageia Trump? Silêncio da entidade, e do Comitê Olímpico Internacional, não é mero lapso O banimento da Rússia das competições esportivas internacionais, promovido pela Federação Internacional de Futebol (FIFA) e pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) após o início da guerra na Ucrânia, foi apresentado como uma medida ética, civilizatória e em defesa da paz mundial. Em nome da “neutralidade política” e da “proteção dos valores universais do esporte”, atletas, seleções e delegações russas passaram a ser impedidas de participar oficialmente de eventos esportivos globais. Contudo, quando se observa o comportamento dessas mesmas instituições diante de ações belicosas, intervencionistas e flagrantemente violadoras do direito internacional por parte dos Estados Unidos — incluindo golpes de Estado, invasões militares, bloqueios econômicos e, mais recentemente, o sequestro de um chefe de Estado estrangeiro — se expressa uma contradição estrutural: a neutralidade esportiva é, na prática, seletiva, ideológica e funcional à ordem imperial vigente, atendendo aos interesses do capital internacional. Parto do entendimento de que o esporte constitui um aparelho ideológico fundamental da ordem capitalista global, não operando fora da política, mas como um aparelho ideológico do estado burguês que acentua e legitima o poder geopolítico hegemônico, no qual sanções são aplicadas não a partir de princípios universais, mas de alinhamentos ideopolíticos estratégicos. O banimento da Rússia e a retórica moral do esporteA decisão de excluir a Rússia de competições organizadas pela FIFA e pelo COI foi rapidamente justificada como uma resposta excepcional a uma agressão militar “inaceitável”. Essa retórica humanitária opera como ideologia, no sentido clássico do termo, ao converter interesses geopolíticos específicos em valores universalizados. Essa expressão da “falsa consciência”, ao longo dos anos, construiu a ideia de que o esporte, enquanto espaço de fraternidade entre os povos, não poderia compactuar com um Estado que viola a soberania de outro. Assim, o banimento foi apresentado como um gesto de responsabilidade ética, quase pedagógico, em defesa da paz. No entanto, essa postura ignora deliberadamente um elemento fundamental: o esporte internacional jamais adotou critérios semelhantes de forma sistemática. A história recente está repleta de conflitos armados, intervenções militares e ações de guerra protagonizadas por potências ocidentais — especialmente pelos Estados Unidos — que jamais resultaram em qualquer tipo de sanção esportiva. Invasões como as do Iraque, Afeganistão, Líbia ou Síria, além de operações militares indiretas, assassinatos seletivos e golpes patrocinados, nunca suscitaram debates equivalentes sobre banimento, neutralidade ou valores universais do esporte. Essa assimetria revela que o problema não é a guerra em si, mas quem a protagoniza. Estados Unidos: violência estrutural sem punição esportivaOs Estados Unidos, cujo presidente, no dia 5 de dezembro, recebeu do mandatário da Fifa, Gianni Infantino, o Prêmio da Paz, figuram como o principal agente militar global nas últimas décadas. Seu histórico inclui intervenções diretas, guerras preventivas baseadas em informações falsas, sanções econômicas que produzem crises humanitárias e práticas de sequestro, prisão arbitrária e extradições forçadas de lideranças políticas estrangeiras. Ainda assim, a delegação estadunidense segue participando normalmente de Jogos Olímpicos, Copas do Mundo e demais eventos esportivos internacionais, sem qualquer questionamento institucional relevante. O recente sequestro do presidente venezuelano — um ato que viola frontalmente princípios básicos do direito internacional, da soberania nacional e da autodeterminação dos povos — reforça esse padrão de exceção imperial. O silêncio da FIFA e do COI diante desse episódio não é um lapso, mas uma expressão coerente de sua inserção política no sistema internacional. Se a defesa da paz fosse um princípio real e universal, os Estados Unidos deveriam figurar como os primeiros a sofrer sanções esportivas (mas, como observamos, seu presidente recebe prêmio em evento oficial de entidade esportiva). O fato de isso jamais ter ocorrido demonstra que tais instituições não atuam como árbitros morais globais, mas como atores políticos subordinados à hegemonia ocidental. O mito da neutralidade esportivaA contradição entre o tratamento dado à Rússia e aos Estados Unidos desmonta o mito da neutralidade esportiva que na essência cumpre função hegemônica, organizando o consenso em torno de uma ordem que se apresenta como natural e inevitável. A ideia de que o esporte pode se manter “acima da política” funciona como um discurso ideológico que oculta relações de poder. Na prática, o esporte internacional se articula com interesses econômicos, diplomáticos e estratégicos, operando como uma plataforma de soft power. Diversos estudos no campo da educação física/ciências do esporte demonstram que a chamada neutralidade esportiva jamais foi um princípio efetivo, mas uma construção ideológica funcional aos conflitos geopolíticos, especialmente durante a Guerra Fria. As pesquisas evidenciam como eventos esportivos internacionais foram sistematicamente instrumentalizados tanto pelos Estados Unidos quanto pela União Soviética como arenas de disputa simbólica, afirmação de modelos civilizatórios e demonstração de superioridade política, econômica e cultural. Os Jogos Olímpicos, em particular, constituíram-se como espaços privilegiados dessa confrontação, seja pela contagem de medalhas como indicador de eficiência e eficácia do modelo econômico adotado, seja pelo uso do boicote, da propaganda e da exclusão seletiva como estratégias políticas. Nesse contexto, o discurso da neutralidade operou como uma mistificação: enquanto se proclamava o afastamento da política, o esporte cumpria uma função ativa na produção de consenso, na legitimação ideológica dos blocos – socialista e/ou capitalista – em disputa e na naturalização da ordem internacional bipolar. É importante ressaltar que FIFA e COI dependem financeiramente de patrocinadores, direitos de transmissão, mercados consumidores e alianças com Estados centrais do capitalismo global. Nesse contexto, sancionar países periféricos ou rivais geopolíticos é viável; confrontar a potência hegemônica, não. Assim, o esporte torna-se um instrumento de punição simbólica seletiva, reforçando narrativas de “bem” e “mal” alinhadas à política externa das potências dominantes. Considerações finaisO banimento da Rússia e a complacência diante das ações belicosas dos Estados Unidos não representam incoerências pontuais, mas revelam a lógica estrutural do esporte internacional sob o capitalismo global. FIFA e COI não são entidades neutras, nem guardiãs universais da ética esportiva. São instituições inseridas em uma ordem mundial desigual, que utilizam o discurso dos valores para legitimar decisões políticas assimétricas. Reconhecer essa contradição é fundamental para desmistificar o esporte como espaço puro e apolítico. Ao contrário, ele constitui um campo privilegiado de disputa ideológica, no qual se reproduzem hierarquias globais, interesses imperialistas e estratégias de dominação simbólica. Questionar essa neutralidade seletiva não é politizar o esporte; é, antes, revelar a política que sempre esteve nele. | A A |
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Trump ataca. Há saída democrática?Em resposta à guerra de Trump, Conferência Internacional Antifascista e pela Soberania ocorrerá em Porto Alegre, em março. Reunirá partidos, organizações e movimentos para dialogar sobre as estratégias e iniciativas em cada um de nossos países A invasão da América Latina através do bombardeiro do território venezuelano, com o sequestro de seu presidente e da primeira combatente, é a senha do governo norte-americano dizendo ao mundo que nunca teve qualquer apreço pela democracia. Logo depois, vieram as ameaças contra Colômbia, Cuba, Groelândia e agora, a saída de todos os espaços de diálogos multilaterais das Nações Unidas. É, inequivocamente, uma declaração de guerra contra toda América Latina. Na verdade, essa atitude não é uma surpresa. O imperialismo sempre foi um instrumento do grande capital para dominar, explorar e empobrecer milhões de seres humanos, enriquecendo uma pequena minoria. Por décadas, essa dominação se deu através do controle das reservas de petróleo, do comércio internacional centrado no dólar, da hegemonia militar e tecnológica e de um arranjo de governança global tutelada através do sistema ONU. A mudança da estratégia do império é a prova que o mundo mudou. Os avanços tecnológicos e econômicos da China alteraram a geopolítica global, abrindo uma janela para um mundo multipolar, diverso e, talvez, até mais democrático. Com um modelo econômico voltado a inclusão de milhões de pessoas, a experiência chinesa tem se mostrado uma alternativa eficaz e eficiente ao modelo capitalista neoliberal. Contraditoriamente, a China comunista, criou um capitalismo de estado, com enorme capacidade de atuação em todo planeta. Que pese a questão ambiental ter se incorporado somente nos últimos anos, sua concepção tem se demonstrado antagônica ao imperialismo norte-americano. Isto porque, apesar de sua supremacia econômica, militar e tecnológica, a China, pelo menos em relação a América Latina, não tem um comportamento de dominação, e tem buscado construir relações de respeito entre as nações baseadas na cooperação. A criação dos BRICS[1], uma iniciativa ousada e potente, é a prova real de que a China pretende construir uma liderança global multipolar sem os Estados Unidos. Frente a imposição deste novo cenário, o embate com os EUA era previsível e inevitável. Por isso, a quinada na estratégia norte-americana tem como principal motivação, não sua força, mas a decadência do modelo neoliberal na qual toda sua política se centraliza. Neste novo contexto, os EUA têm duas armas poderosas. A primeira é, literalmente, seu poderio militar, capaz de fazer frente a qualquer conflito armado. Soma-se a sua capacidade bélica, a ausência de qualquer ética. Tenhamos certeza, em matéria militar eles praticam qualquer atrocidade, sem nenhum pudor. A outra arma, é a dominação político ideológica, em especial, nas sociedades da América Latina. Essa capacidade de dominação se intensificou com as redes sociais dominadas e instrumentalizadas pelas big techs norte-americanas e que estão nas mãos de praticamente todo cidadão e cidadã latino-americana. Criando suas próprias narrativas, organiza um exército interno, em cada um dos nossos países, pronto para agir contra a democracia. A crise social e econômica decorrente do colapso neoliberal favorece a estratégia norte-americana que aposta num ambiente de barbárie, desestruturação social, crise institucional e deslegitimação dos Estados nacionais. Um ambiente onde a regra é a lei do mais forte, com a proliferação de grupos paramilitares ou milicianos, alimentando discursos de ódio, praticando violência contra a juventude negra, como ocorreu no Rio de Janeiro, contra as mulheres, comunidade LGBTQIAPN+ e, nos próprios EUA[2], através da violência do ICE contra imigrantes e nacionais. Neste cenário, o combate ao narcotráfico é mera narrativa visando dar alguma legitimidade social a tanta violação de direitos. Aliás, há poucos meses escrevi que o projeto imperialista é alimentar guerras civis em todos os países democráticos, desestabilizando sua institucionalidade e criando condições para uma dominação externa com baixos níveis de resistência. E essa mensagem está expressa em alto e bom som pelo Governo Trump em suas declarações oficiais, como aquela feita em início de dezembro de 2025 quando apresentou a “Nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA[3]”. Para nós, latino-americanos, o terrível é que estamos muito próximos ao colapso do império. Neste contexto, a pergunta é o que fazer? Desde as primeiras edições do Fórum Social Mundial em Porto Alegre[4], as forças progressistas e democráticas do mundo denunciavam os limites das democracias burgueses capitalistas, indicando que era preciso a constituição de um outro marco referencial de democracia, mais participativa, popular e, principalmente, planetária, capaz de fazer frente a insanidade do neoliberalismo. Para construir uma transição democrática ao neoliberalismo, as organizações e movimentos sociais sempre defenderam a organização e mobilização massiva das nossas sociedades em prol de pautas de defesa da democracia participativa, da inclusão social, de controle do grande capital, dos direitos humanos e ambientais. Essas seguem sendo as armas contra a potência militar e a dominação ideológica norte-americana neste momento de agudização do conflito: organização e mobilização social. Passados 25 anos do primeiro FSM, ainda estamos aqui, resistindo. A dominação só acontece quando nossos corpos e mentes cedem ao poder da força injusta, como se ela fosse invencível. E não é. A força mobilizadora das sociedades civis é capaz de deter o avanço do fascismo e do imperialismo. A América Latina é um território de paz, solidariedade e desenvolvimento social. Em 2026 haverá eleições em vários países latino-americanos, em especial, no Brasil, e o ambiente de instabilidade política e social é arma nas mãos daqueles que desejam acabar com a democracia e instalar um estado de dominação, medo e terror. Precisamos, como sociedade civil plural e diversa, construir um novo pacto com os partidos políticos de todos os matizes, na defesa do estado democrático de direito. Um novo pacto político entre sociedade e governos, para que, as verdadeiras democracias se levantem na defesa de sua autonomia, sua soberania, de seus territórios e de seu povo. A resistência deve ser nas ruas, com mobilizações massivas, em todas as cidades do continente. A América Latina precisa despertar e levantar-se agora. Por mais que pareça que a ofensiva norte-americana é sinal de sua força, na realidade, ela representa o oposto. Por isso, precisamos criar mecanismos para que seja possível sobreviver a queda do império como indivíduos, coletivos, nações e como humanidade. Precisamos imaginar como podemos, sociedade civil e governos democráticos e progressistas de todo mundo, criar um ambiente para uma nova fase histórica da humanidade. Essa guerra militar, política e cultural não será vencida sem uma sociedade civil organizada, mobilizada e interconectada na defesa da dignidade e dos direitos de todos os seres humanos. Finalizo dizendo que a 1ª Conferência Internacional Antifascista e pela Soberania dos Povos[5] que ocorrerá em Porto Alegre, em março de 2026, será um importante momento de reunir os partidos, organizações e movimentos sociais e sociedade civil como um todo para dialogar sobre as estratégias e iniciativas em cada um de nossos países. A realidade nos chama à ação e, com certeza, estaremos à altura deste desafio. | A A |
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Venezuela: Resistência ao ataque brutalApós sequestrar Maduro, Trump assume cobiça pelo petróleo. Bombardeios visam os centros da resistência armada e popular — mas a luta não acabou. Episódio indica: é preciso colocar em pauta já, também no Brasil, ruptura das relações de dependência com os EUA O bombardeio aéreo do governo Donald Trump, dos EUA, na madrugada deste 3 de janeiro de 2026, ao território venezuelano, para sequestrar o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cília Flores, a fim de forçar pelas armas uma mudança de regime, viola a soberania da América Latina e tem um profundo significado para o Brasil e o mundo. A intervenção armada, e também a reação venezuelana em curso, marcam uma inflexão nas relações internacionais em escala mundial. O governo bolivariano segue de pé. Antes de tudo, o ataque militar na Venezuela marca uma nova etapa da guerra imperialista de intervenção e espoliação da América Latina sob o Corolário Trump. A guerra híbrida que se prolongava há mais de 25 anos culminou nessa madrugada em uma ação militar direta e sem máscaras. Consiste em uma tentativa de derrubar o projeto de independência política do povo venezuelano e representa um recado aos demais povos e governos da região de que devem se manter subordinados e dependentes de Washington pela via do terror, do medo, da instabilidade institucional promovida pelos Estados Unidos. Os alvos dos bombardeios explicitam uma tática precisa de atingir a unidade cívico-militar, principal base de sustentação do governo bolivariano. O objetivo estratégico não está oculto. O establishment estadunidense quer atingir dois objetivos com um único movimento. Por um lado, eliminar um governo independente que dá exemplo de resistência ao imperialismo na região para apropriar-se diretamente das riquezas naturais e energéticas venezuelanas, especialmente das maiores reservas provadas de petróleo do mundo. Por outro, quer impedir que a China, país eleito rival hegemônico, importe esse importante combustível e fonte de energia para o desenvolvimento, sendo que o país asiático é o destino de 80% das exportações venezuelanas. Vejamos como a tática dos bombardeios desse dia 3 de janeiro revelam a estratégia estadunidense. Alguns dos locais foram o Forte Tiúna e a base aérea de La Carlota, o Comando-Geral da Milícia Bolivariana (ao lado do Quartel da Montanha) e o Porto de La Guaira. Esses lugares representam uma mensagem muito clara: atingir simultaneamente as bases de sustentação civil e militar do governo bolivariano da Venezuela e afetar, indiretamente, a China. Em primeiro lugar os alvos das Forças Armadas. Os bombardeios atingiram o Forte Tiúna e a Base Aérea de La Carlota. O Forte Tiúna, principal e mais importante instalação militar da Venezuela, localizado em Caracas, sede do Ministério da Defesa, do Comando Estratégico Operacional da Força Armada, da Academia e a Universidade Militar Bolivariana, o Batalhão Ayala, a Corte Marcial e os tribunais militares. Atacar esse alvo significa que os EUA ativaram um plano para derrubar o principal centro de decisão militar estratégica do governo venezuelano. A Base Aérea de La Carlota, localizada no coração de Caracas, é um aeroporto militar e centro logístico de comando para operações para a proteção da Capital do país. É ponto de entrada e saída de equipamentos e tropas para a defesa do centro político, sendo também importante instalação de defesa da Capital. Com isso, os ataques vulnerabilizam duas das principais instalações militares da capital venezuelana. Em segundo lugar, o Comando Geral da Milícia Bolivariana é a sede da resistência civil armada. Responsável pela defesa territorial em união cívico-militar, mobilizando a população civil em apoio às FAN regulares. A Milícia bolivariana tem mais de 4 milhões de alistados, podendo esse contingente ser duplicado, com formação em técnicas de guerra assimétrica. Sua sede fica a poucos metros do Quartel da Montanha, ou Quartel do 4F, lugar histórico para a Revolução Bolivariana. Foi de lá que Hugo Chávez liderou uma rebelião contra o neoliberalismo, em 4 de fevereiro de 1992. Localizado no seio da mais tradicional e uma das mais populosas comunidades ou favelas caraquenhas, o complexo 23 de Janeiro, é o local que abriga os restos mortais do líder Hugo Chávez. Com vista frontal, está posicionado a menos de dois quilômetros do centro do poder político nacional venezuelano, o Palácio Presidencial de Miraflores. Esse lugar é um dos principais espaços simbólicos da resistência do povo venezuelano e também um dos pilares de sustentação popular ao governo bolivariano, abrigando população trabalhadora da Capital. Junto com os militares leais, os civis populares reverteram o golpe de estado consumado em 11 de abril de 2002. Finalmente, em terceiro lugar destaco o bombardeio do Porto de La Guaira, distante apenas 31 quilômetros da Capital e localizado nas adjacências do principal aeroporto do país, o Aeroporto Internacional de Maiquetía. La Guaira não é o principal porto de exportação de petróleo. Sua função principal é abastecer com suprimentos médicos, bens de consumo e manufaturados a capital venezuelana. Bombardear o Porto de La Guaira significa um recrudescimento ao bloqueio comercial e neutralização de uma fonte de abastecimento da Capital do país, que concentra o poder político, militar e social venezuelano. É um sinal que preparam condições para um asfixiamento posterior e prolongado, dando continuidade ao bloqueio e cerco que já estava em vigor, mas com maior violência. Em pesquisas anteriores encontrei evidências históricas de que o governo bolivariano da Venezuela tem como pilar fundamental a unidade cívico-militar, representada sobretudo pelo subproletariado urbano e pelos militares bolivarianos. O ataque militar estadunidense desta madrugada atinge o coração das forças mais fundamentais de sustentação tanto civis quanto militares do governo venezuelano. É, portanto, uma tentativa armada aberta de derrubada do regime bolivariano. Mas o governo não caiu. Segue com apoio interno e externo. O presidente Maduro e sua esposa, Cília Flores, foram sequestrados e estão a caminho dos EUA. Segundo o general Dan Caine, chefe do Estado Maior estadunidense, estão sendo levados de navio para serem “julgados” por “narcoterrorismo” nos EUA, um crime não tipificado no Direito Internacional e uma flagrante ilegalidade, além de um ato brutal e imoral de violação de direitos humanos e da soberania venezuelana. Resistência de militares e do povoA reação e resistência venezuelana também deve ser analisada em seu significado histórico já nessas primeiras horas. Militares leais e o povo estão se mobilizando em todas as partes do país. A liderança da resistência está sendo protagonizada politicamente por uma mulher, a vice-presidenta Delcy Rodríguez, uma mulher socialista. E pelo ministro do Interior, Justiça e Paz, Diosdado Cabello, que lidera as forças militares leais. A rede Telesur de televisão transmite os manifestos de apoio popular e militar e o pedido das ruas de devolução e regresso de Maduro e Cília ao país. É bom lembrar que o povo venezuelano protagonizou a guerra de independência no início do século 19. Entregou enorme sacrifício à causa da libertação da América e venceu. E derrotou também inúmeras tentativas de golpe de Estado. Porém, um ataque militar desta magnitude é uma novidade em mais de 100 anos de história do país. Essa violência imperialista pode representar uma inflexão histórica em toda a região. O ataque está provocando um rechaço imediato de governos de diversos países e movimentos sociais ao redor do mundo. Todos repudiando os ataques e denunciando sua ilegalidade, que fere o direito internacional, e são atos brutais e imorais. O presidente Lula, a presidenta Claudia Sheinbaum, do México, e o presidente Gustavo Petro, da Colômbia, lideram como presidentes de países latino-americanos um forte repúdio, junto com Cuba. O presidente Emmanual Macron declarou que o sequestro do presidente Maduro viola a legislação internacional. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, diz que a violação do direito internacional por parte dos EUA é inaceitável. O MST convocou manifestações de apoio ao povo venezuelano no Brasil. É momento de todos e todas defendermos a soberania do povo venezuelano e rejeitarmos firmemente a intervenção imperialista na América Latina. | A A |
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Para evitar uma derrota históricaO recado de Trump está dado há muito: sua política imperialista e neocolonial não tem limites, sua intenção é roubar riquezas naturais e subjugar povos. Mas a trajetória de revoltas da Venezuela, e seu embrião de poder comunal, sugerem que nada está escrito Por Tiaraju Pablo D’Andrea A exploração e exportação do petróleo durante todo o século XX transformou a Venezuela em um dos países com maior PIB da região. No entanto, a riqueza oriunda do petróleo nunca foi distribuída no país. Os recursos ficavam nas mãos da burguesia venezuelana, muito rica, que ia de jatinho passar os finais de semana em Miami. Essa desigualdade provocou muita pobreza, com miséria no campo e surgimento de favelas nas grandes cidades. No plano político, dois partidos da burguesia dividiram o poder durante todo o século XX. Em 1989 ocorreu o Caracazo, uma revolta popular que muda os rumos da história. A revolta começou a partir de protestos espontâneos contra o aumento da passagem de ônibus. Logo se transformou em levante popular contra a fome e a miséria. O então presidente, Carlos Andrés Perez, reprimiu violentamente a população. Foi um banho de sangue nas ruas e favelas de Caracas. Até hoje não se sabe o número real de mortos. Algumas fontes dizem ser 300. Outras 1.500. No entanto, a repressão ao Caracazo causou uma divisão dentro do exército. Muitos soldados afirmaram que não era papel das forças armadas atirar contra o próprio povo. O saldo de mortes, somado à pobreza da maioria da população, fez o descontentamento virar um movimento político dentro do próprio exército, organizado por Hugo Chávez, então militar. Chávez passa a ser uma figura política cada vez mais conhecida. Oriundo dos extratos populares, sabia falar com a população e entendia seus desejos. Em 1998, ganhou a eleição presidencial por primeira vez, assumindo no começo de 1999. Foi presidente da Venezuela até o dia da sua morte, em 5 de março de 2013. Várias vezes reeleito, Hugo Chávez foi um dos presidentes mais populares da história da América Latina. Já em 2002 sofreu uma tentativa de golpe de Estado. O povo foi às ruas exigindo sua libertação. Chávez voltou aclamado e ainda mais forte. Seus anos no governo foram muito importantes para a América Latina e o mundo. No plano interno, com total apoio popular, seu governo redistribuiu a renda do petróleo. Ao invés de financiar a ostentação da burguesia, esse recurso foi utilizado para uma série de políticas sociais. A educação melhorou. A saúde melhorou. Ampliaram-se as políticas habitacionais. A produção de alimentos aumentou e foi diversificada. Outro avanço importante deu-se no âmbito cultural. O governo da Venezuela criou formas midiáticas e artísticas que valorizaram a cultura nacional e os povos originários, além de politizar sua população. A burguesia venezuelana nunca aceitou ter perdido o poder para o povo. Os Estados Unidos nunca aceitaram um país verdadeiramente livre na América Latina, ainda mais com reservas de petróleo. Tendo Simón Bolívar como grande exemplo, Chávez foi também o maior impulsionador da unidade latinoamericana nas últimas décadas, liderando um processo que uniu experiências de vários países: a Bolívia de Evo, a Argentina dos Kirchner, o Uruguai de Pepe Mujica, o Paraguai de Lugo, o Brasil de Lula. Infelizmente, muitos governos da América Latina não souberam aproveitar as oportunidades que a chamada “onda rosa” propiciou. Era necessário avançar muito mais em organização popular do que o que foi de fato realizado. A história cobra seu preço. Após a morte de Chavez, em 2013, Nicolas Maduro, então vice, assumiu o cargo de presidente. De maneira evidente, com o passar do tempo, a experiência bolivariana cometeu equívocos, dividiu-se internamente, sofreu desgastes. Contudo, há que se lembrar que os mandatos de Maduro tiveram que lidar com o aprofundamento das campanhas de desestabilização organizadas pelos EUA com apoio da burguesia venezuelana. Nos últimos anos, intensificaram-se diversos bloqueios econômicos contra a Venezuela, dificultando as condições de vida no país. No âmbito político, diversas campanhas de desestabilização dentro e fora do país instituíram uma narrativa falsa de que o país estava sob uma ditadura e que a miséria reinava. Algumas figuras da direita venezuelana foram cruciais nesse plano diabólico de destruição do próprio país, dentre os quais Capriles, Guaidó e Corina Machado. A burguesia venezuelana preferiu aliar-se a uma potência estrangeira contra o próprio povo, tendo como objetivo retomar o poder que deteve durante todo o século XX (a direita brasileira faz a mesma coisa). Há também que se ressaltar o papel vergonhoso da mídia corporativa do Brasil, que amplificou as diversas mentiras que se contou sobre a Venezuela. A mídia corporativa brasileira (e de outras partes do mundo) serviu como uma correia de transmissão dos interesses do imperialismo estadunidense. Bajulação pura! Mesmo com tantas dificuldades, a experiência bolivariana perdura no tempo. Nesse âmbito, as comunas são o grande pilar do poder popular na Venezuela. É no bairro que as decisões são tomadas. É uma democracia direta que funciona de baixo pra cima. Essa força popular será crucial no decorrer dos acontecimentos, e toda periferia e favela no Brasil tem muito a aprender com a experiência territorial das comunas venezuelanas. O segundo mandato de Donald Trump é marcado pelo terrorismo de Estado. De olho nas reservas de petróleo e no ouro da Venezuela, cercou e atacou militarmente o país, violando tratados internacionais e a própria Constituição dos EUA. O recado de Trump vem sendo dado há um tempo: sua política imperialista e neocolonial não tem limites, e sua intenção é roubar riquezas naturais e subjugar povos. Faz-se necessária uma reação potente dos BRICS e do que resta dos organismos internacionais. O povo dos Estados Unidos também precisa pressionar internamente. A Europa deve abandonar a vergonhosa posição que assumiu, de subserviência total aos EUA. Mais do que nunca, os povos da América Latina devem se unir. A Venezuela é a experiência mais avançada de soberania e verdadeira independência. Sua derrota é também uma derrota histórica para a América Latina. | A A |
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A Venezuela sob ataque e o chavismo na encruzilhadaApós o sequestro de Maduro, Trump indica aceitar um governo liderado por Delcy Rodríguez, desde que o controle do petróleo venezuelano seja transferido a empresas dos EUA. A decisão não será fácil. O Estado venezuelano encontra-se por um triz Por Rômulo Paes de Sousa Após semanas de agressões militares pontuais na costa venezuelana, na madrugada de 3 de janeiro de 2026 cerca de 150 aeronaves norte-americanas bombardearam alvos militares em Caracas e Higuerote, culminando no sequestro do presidente do país e de sua esposa. A ação, rápida e devastadora, deixou o mundo perplexo. Embora os Estados Unidos possuam um longo histórico de intervenções na América do Sul — inclusive na própria Venezuela —, esta foi a primeira vez que utilizaram diretamente suas tropas em uma ação militar dessa natureza. Até então, sua atuação se dava sobretudo por meio do financiamento e do apoio a forças políticas direitistas locais. O episódio também sinaliza que o presidente Donald Trump abandonou definitivamente a diretriz proclamada em seu primeiro mandato, segundo a qual buscaria encerrar guerras, e não promovê-las. Próximo às 14 horas (horário de Brasília), no mesmo dia da captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, o presidente Trump, acompanhado dos secretários Marco Rubio (Estado) e Peter Hegseth (Defesa), além do general Dan Caine (chefe do Estado-Maior Conjunto), concedeu uma coletiva para esclarecer as motivações do ataque e indicar os próximos passos da ação na Venezuela. Em uma leitura autoindulgente e vacilante, marcada por uma argumentação confusa, as autoridades civis transmitiram quatro mensagens centrais: (1) tratou-se de uma operação de captura, razão pela qual não teria sido necessária autorização do Congresso norte-americano; ainda assim, as tropas permaneceriam no país pelo tempo considerado necessário para garantir uma “transição justa”; (2) os custos da intervenção, de caráter prolongado, seriam financiados pela exploração do petróleo venezuelano, o que também permitiria compensar supostos prejuízos sofridos pelos EUA e por seus cidadãos em decorrência de expropriações realizadas por governos venezuelanos; (3) a solução político-administrativa para evitar um vácuo de poder não passaria pela líder da oposição, Maria Corina Machado, considerada desprovida de respaldo interno; nesse contexto, foi feito um aceno à então presidente interina Delcy Rodríguez, desde que aceitasse os termos impostos pela nova e desinstitucionalizada Pax Americana; (4) os Estados Unidos, amparados por sua força econômica, política, cultural e militar, se arrogam o direito de definir unilateralmente onde, quando e como agir para garantir seus interesses nacionais. A comparação com a guerra do Iraque é inevitável: uma justificativa falsa para a intervenção, a expectativa de rápida estabilização política e uma confiança excessiva na superioridade bélica como instrumento garantidor dessa estabilidade, em flagrante desconhecimento das complexidades sociopolíticas locais. Assim como no Iraque, a intervenção na Venezuela removeu de forma célere o topo da direção política do país. Diferentemente do caso iraquiano, contudo, Trump sinaliza disposição para negociar com as forças hegemônicas locais. Indica aceitar um governo liderado por Delcy Rodríguez, desde que o controle da exploração de todo o petróleo venezuelano seja transferido à Chevron e a empresas associadas. O principal problema dessa proposta reside na reação dos diversos atores políticos internos, incluindo setores mais radicalizados do chavismo e a ludibriada oposição. Ao descartar Maria Corina Machado de um eventual governo de transição, Trump envia aos chavistas o sinal de que está disposto a pagar o preço necessário para manter o regime em funcionamento, desde que seus interesses estratégicos sejam preservados. O ano de 2026 começou de forma turbulenta no continente americano. O Congresso dos Estados Unidos foi reduzido a uma instância meramente homologadora de um presidente que opera acima da lei. A governança global encontra-se em frangalhos, tanto pela incapacidade das instituições criadas no pós-guerra de mediar conflitos regionais quanto pelo apoio explícito de vários países da América Latina a uma ação militar que viola a soberania de um país vizinho. Caso essa empreitada tenha êxito, o que impediria os EUA de se apropriarem, amanhã, das reservas da Guiana? O Judiciário norte-americano ainda poderá enfrentar uma situação embaraçosa: julgar Maduro e Flores por narcoterrorismo enquanto o remanescente aparato chavista seguiria governando a Venezuela em colaboração com Washington. Para o Brasil, os riscos são múltiplos. Mais uma vez, o país se mostra dividido quanto à leitura de riscos à sua soberania. A oposição oscila entre o apoio aberto à intervenção norte-americana e uma condenação discreta, acompanhada da responsabilização dos governos petistas pela sobrevida do chavismo. O governo brasileiro, por sua vez, vê sua autoridade regional contestada e enfrenta dificuldades para confrontar as ações dos EUA, em um contexto de enfraquecimento do bloco de países soberanos da região. Contudo, há um papel que o Brasil poderá vir a desempenhar na crise venezuelana. Por ser o maior país da América Latina e vizinho do país sob ataque, o governo do Brasil pode funcionar como mediador para a reorganização política da Venezuela. O demais grandes países sul-americanos, Argentina e Colômbia, estão agastados demais com alguma das partes para ocupar esse papel. Os editoriais dos principais jornais brasileiros condenaram a agressão à Venezuela, elogiaram a postura do presidente Lula e defenderam a realização imediata de eleições. Quem acompanhou atentamente as entrevistas das autoridades norte-americanas, desde 3 de janeiro, percebeu que a democracia não integra o roteiro traçado pela administração Trump para a Venezuela. O país encontra-se quase paralisado, à espera dos desdobramentos dos próximos dias. O chavismo está diante de uma encruzilhada histórica: colaborar para sobreviver ou se lançar em desvantagem em uma guerra assimétrica. A decisão não será fácil, nem pode tardar. O frágil Estado venezuelano encontra-se por um triz. | A A |
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